1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Programa nuclear do Irã entra em fase de máxima incerteza

Elina Farhadi
8 de outubro de 2026

Inspeções limitadas lançam ainda mais dúvidas sobre o que aconteceu com o urânio enriquecido de Teerã. Washington mantém pressão e negociações seguem em aberto.

Mísseis iranianos
Complexos nucleares iranianos voltam ao foco internacional em meio a dúvidas sobre o paradeiro de material enriquecidoFoto: Morteza Nikoubazl/NurPhoto/picture alliance

As dúvidas sobre o estoque de urânio enriquecido a 60% mantido pelo Irã e a redução da capacidade de supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre as instalações nucleares de Teerã ampliaram a incerteza sobre a situação do programa nuclear do país.

Ainda assim, permanecem sinais de disposição para a negociação. Em entrevista na semana passada à emissora americana Fox News, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que Teerã está disposta a diluir seu estoque de urânio enriquecido e submeter seu programa nuclear a inspeções internacionais, desde que seja alcançado um acordo abrangente dentro dos marcos do direito internacional e do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).

Declarações contraditórias em Teerã

O tom diplomático de Pezeshkian, porém, contrasta com manifestações de autoridades militares e políticas do país.

Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, afirmou que as ações dos Estados Unidos e de Israel criaram condições para que o país abandone o TNP. Segundo a Press TV, principal canal estatal iraniano em língua inglesa, ele ressaltou que nenhuma decisão foi tomada até o momento.

Em 19 de setembro, o jornal britânico The Daily Telegraph informou que o Irã estava construindo novas instalações e reconstruindo estruturas danificadas. A reportagem se baseou em imagens de satélite.

Entre os locais citados estão "Taleghan 2", dentro do complexo de Parchin, ao sudeste de Teerã, e uma instalação subterrânea escavada sob a chamada Montanha Pickaxe, próxima ao centro nuclear de Natanz.

Ambos os locais haviam sido atingidos por bombardeios durante a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. O Pentágono batizou a ofensiva de Operação Epic Fury, enquanto Israel a chamou de Operação Roaring Lion.

A reconstrução desses complexos alimentou especulações de que equipamentos e estoques de urânio enriquecido possam ter sido transferidos para áreas mais profundas e protegidas.

Washington mantém posição firme sobre o tema. Em discurso na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou: "Nunca permitirei que o Irã tenha uma arma nuclear."

Ainda há espaço para a diplomacia?

O acesso a instalações militares e o alcance das inspeções da AIEA estão entre os pontos mais controversos relacionados ao programa nuclear iraniano.

O acordo nuclear de 2015, conhecido como Plano de Ação Conjunto Global, impôs restrições significativas ao Irã em troca do alívio de sanções, com o objetivo de impedir o desenvolvimento de armas nucleares.

As regras de inspeção de instalações militares, entretanto, foram alvo constante de críticas por parte de opositores do acordo em Washington, fator que contribuiu para a decisão de Trump de retirar os Estados Unidos do Plano de Ação em 2018.

John Bolton, ex-assessor de Segurança Nacional dos EUA e ex-embaixador americano na ONU, afirmou à DW que os esforços diplomáticos e os acordos firmados com o Irã servem apenas como uma "cobertura para uma estratégia imutável perseguida por Teerã".

Segundo Bolton, o programa de armamentos nucleares iraniano nunca foi efetivamente interrompido. Ele também apontou limitações das instituições internacionais, argumentando que "a AIEA jamais teve acesso às bases militares iranianas, onde ocorrem atividades críticas relacionadas à militarização do programa nuclear".

Questionado sobre as implicações jurídicas de uma eventual saída do Irã do Tratado de Não Proliferação Nuclear, Bolton entende que o país viola o tratado há mais de três décadas, de modo que uma retirada formal teria pouco impacto prático.

Guerra reforça a determinação nuclear iraniana

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, somada às mudanças na estrutura de poder iraniana após a morte do líder supremo Ali Khamenei, gerou novos desdobramentos.

Em 9 de setembro, o Conselho de Governadores da AIEA encaminhou o caso do Irã ao Conselho de Segurança da ONU por supostas violações de suas obrigações de não proliferação.

Ao mesmo tempo, expirou em meados de agosto o prazo de 60 dias para negociações técnicas com os Estados Unidos previstas no chamado Memorando de Entendimento de Islamabad, que havia prorrogado o cessar-fogo entre as partes.

Para Damon Golriz, analista político e professor da Universidade de Ciências Aplicadas de Haia, a visão de Donald Trump de que enfraqueceu as capacidades nucleares iranianas pode produzir o efeito contrário.

Segundo ele, um Irã dotado de armas nucleares acabaria se tornando "o maior legado de política externa da presidência de Donald Trump".

Ao avaliar os acontecimentos militares de 2026 e a morte de Khamenei em um ataque aéreo israelense, Golriz afirmou que "Teerã enfrentou uma guerra existencial em fevereiro de 2026".

"A campanha enterrou suas instalações nucleares, eliminou cientistas-chave ligados ao programa de armas e desmantelou pelo menos cinco níveis da cúpula militar e de segurança do Irã", disse.

Para ele, a morte do líder supremo tornou obsoleta o que até então era uma questão central de segurança: a de Ali Khamenei como principal obstáculo à construção da bomba nuclear iraniana.

Golriz argumenta que a ousadia demonstrada no ataque à liderança iraniana alterou profundamente a forma como Teerã percebe sua própria segurança nacional, fortalecendo os apelos por uma revisão da doutrina nuclear.

Ataques americanos atingiram instalações nucleares do IrãFoto: Maxar Technologies/AP/picture alliance

O peso da retórica religiosa sobre armas nucleares

A fatwa, decreto religioso que proíbe a produção e o armazenamento de armas nucleares, sempre foi um dos pilares da narrativa diplomática de Teerã para sustentar que seu programa nuclear tem fins pacíficos.

Mencionada por autoridades iranianas desde meados dos anos 2000, a fatwa foi reafirmada por Ali Khamenei em 2019, quando declarou que a produção e a posse de armas nucleares eram proibidas.

Contudo, diante das transformações políticas em Teerã e do silêncio de Mojtaba Khamenei sobre a renovação desse posicionamento desde que assumiu como novo líder supremo, surgiram dúvidas sobre a permanência dessa linha vermelha religiosa ou sua substituição por novas prioridades de segurança.

Tim Bosch, diretor-executivo do Birdwatcher Group e ex-oficial sênior do Serviço Geral de Inteligência e Segurança da Holanda (AIVD), destacou a relevância desse silêncio, combinado às declarações de autoridades militares iranianas.

À DW, Bosch afirmou que não existe prova conclusiva de uma mudança formal na doutrina nuclear iraniana.

"No entanto, os grupos que se opunham à obtenção de armas nucleares em Teerã estão hoje muito mais enfraquecidos. E o silêncio de Mojtaba Khamenei em reafirmar a fatwa de seu pai torna essa observação particularmente relevante", disse.

Em dezembro de 2024, a AIEA apontou que oIrã era o único país sem armas nucleares a possuir urânio enriquecido a 60%, ao mesmo tempo em que alertava que o país estava "acelerando dramaticamente" o processo de enriquecimento. Para produzir uma arma nuclear, é necessário atingir cerca de 90% de pureza.

Sem acesso dos inspetores da AIEA às instalações, porém, torna-se impossível saber com precisão o estágio atual do programa.

"Se o órgão internacional encarregado de monitorar a atividade nuclear não consegue observar o urânio enriquecido, nenhuma agência de inteligência pode afirmar com segurança se o Irã já tomou a decisão final de construir uma bomba", afirmou Bosch.

"Aqueles que dizem com absoluta certeza que 'eles já decidiram' ou estão blefando ou, em grande medida, promovendo suas próprias agendas políticas: os setores mais radicais do Irã, de um lado, e os setores mais radicais de Israel, de outro."

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

Pular a seção Mais sobre este assunto
Pular a seção Manchete

Manchete

Pular a seção Outros temas em destaque