Proposta indecente
17 de setembro de 2002
Willi Weber nem sequer acredita que a Ferrari esteja mesmo oferecendo a Michael Schumacher um contrato de 75 milhões de euros ao ano, tal como foi divulgado pelo jornal Tuttosport. "Gostaria muito que esta notícia fosse verdadeira. Mas a soma é utópica. E eu conheço a mídia italiana. Não se deve levar tudo tão a sério", adverte o empresário.
Segundo o jornal, a Ferrari quer garantir Schumi como seu piloto caso o alemão decida continuar dirigindo além de 2004, quando termina seu atual contrato de quase 40 milhões de euros anuais. A oferta seria prolongar seu vínculo com a escuderia por mais dois anos, ganhando praticamente o dobro.
A notícia estourou no domingo, mesmo dia em que o jornal alemão Welt am Sonntag publicou declaração do presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo: "Eu deixei claro para o Michael. Ele sozinho decidirá quando irá parar. Se quiser continuar pilotando depois de 2004, a Ferrari é seu lar e eu, o homem mais feliz do mundo. Vou fazer de tudo para manter na Ferrari quem proporcione resultados assim."
Schumacher deu títulos e novos clientes à Ferrari
De fato, a escuderia italiana não tem do que se queixar. Desde que Schumacher sentou-se à frente de um volante em Maranello em 1996, a Ferrari conquistou quatro campeonatos mundiais de construtores e o piloto saltou de bicampeão mundial para penta, batendo um recorde atrás do outro. E a supremacia da dobradinha Schumi-Ferrari atingiu seu ápice este ano, com a conquista mais rápida de um mundial.
Fora das pistas, a Ferrari também lucra com Schumacher. Em 2000, a montadora vendera 3300 unidades. Após a conquista naquele ano do primeiro título do alemão com o carro italiano, as vendas deram um salto e, em 2001, a Ferrari comercializou 4289 unidades. O faturamento subiu 18,5% e o lucro chegou a 62 milhões de euros, já descontadas todas as despesas com a Fórmula-1.
Os números causam inveja dentro do conglomerado Fiat, dono da Ferrari. Ao contrário da prestigiada marca esportiva, o grupo tem registrado prejuízo e sido obrigado a cortar empregos. Neste cenário, a oferta de 150 milhões de euros em dois anos de contrato para Schumacher "soa quase imoral", segundo o jornal alemão Die Welt.
O que são 75 milhões de euros ao ano?
Caso o piloto alemão aceite um salário deste valor, o pentacampeão atingiria remuneração anual de 100 milhões de euros, graças a seus contratos de publicidade e à receita dos artigos de sua marca, como o cartão de crédito que lançou nesta terça-feira em Frankfurt. Assim, Schumi passaria a ser de longe o esportista mais bem remunerado do mundo, ultrapassando o jogador de golfe Tiger Woods. Em 2001, o norte-americano ainda faturou quase o dobro de Schumi.
Jogadores de futebol, por exemplo, estão longe de atingir cifras como a deles. De acordo com a revista France Football, Zinedine Zidane lidera o ranking mundial do futebol, com 13,6 milhões de euros ao ano.
Até mesmo dentro da F-1, os colegas de Schumacher só podem sonhar com 75 milhões. O valor eqüivale praticamente ao orçamento anual das escuderias Arrows e Minardi. Chega a ser quatro vezes superior ao que ganha Jacques Villeneuve (BAR), o segundo piloto melhor remunerado da Fórmula-1, seis maior do que o do irmão Ralf Schumacher (Williams-BMW), e 100 vezes mais do que o salário de Gerhard Berger como diretor de automobilismo da BMW.
Saindo dos parâmetros esportivos, o que são 75 milhões de euros ao ano? Mais do que a União Européia repassa a toda a América Latina para combate à pobreza, à injustiça social e prevenção de catástrofes naturais. Em abril, a UE decidiu destinar 300 milhões de euros nos próximos cinco anos à AL.
Reivindicação inimaginável, oferta justa
"A demanda determina a oferta", defende Gerhard Berger. "Se um piloto me garante títulos mundiais, então ele vale tal investimento", justifica o diretor da BMW.
Somente nesta terça-feira, dois dias depois da revelação do Tuttosport, Schumacher negou ter recebido qualquer proposta da Ferrari. Já seu empresário afirma que ele e o piloto "só conversarão sobre a renovação do contrato com a escuderia a partir de meados de 2003". Willi Weber ressalta que, em todo caso, Schumi não vê possibilidade de mudar de equipe, caso siga correndo além de 2004.
Weber reconhece que a soma citada pelo jornal italiano é astronômica e confessa: "Eu jamais reivindicaria um valor destes". Mas, tal como Berger, o empresário não a acha injusta: "Michael é o melhor piloto e deve ser remunerado como tal". E sendo assim, o empresário remunerado à base de 20% de tudo o que o piloto fatura antecipa: "Se houver de fato uma oferta assim, vamos ficar felizes e aceitá-la. Sem dúvida."