Protestos contra extremismo de direita mobilizam Alemanha
8 de fevereiro de 2025
Manifestações miram o avanço da direita ultranacionalista, representada no país pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que pode conquistar a segunda maior bancada do Parlamento nas eleições de 23 de fevereiro.
Mais de 250 mil pessoas foram às ruas de Munique neste sábado (08/02) contra o avanço da ultradireitaFoto: Sven Hoppe/dpa/picture alliance
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A duas semanas das eleições gerais no país, milhares de pessoas saíram às ruas em diversas cidades da Alemanha neste sábado (08/02) em protesto contra a ascensão da extrema direita, especialmente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD).
Em Munique, mais de 250 mil pessoas protestaram sob o lema "A democracia precisa de você". Grupos contra o extremismo de direita, como as "Avós contra a direita", ajudaram a articular a mobilização.
Organizadores da iniciativa "Munique é colorida" explicaram que queriam enviar um sinal de diversidade, dignidade humana, solidariedade e democracia antes das eleições federais, que acontecerão em 23 de fevereiro.
Ativistas do grupo "Avós contra a direita" em Munique seguram cartazes com a frase "Nós somos o muro de contenção", em tradução livreFoto: Rüdiger Wölk/IMAGO
No domingo passado, mais de 160 mil pessoas se reuniram no centro de Berlim, iniciando a recente onda de manifestações.
O principal motivo dos protestos foi a crescente aproximação entre o partido União Democrata Cristã (CDU), liderado por Friedrich Merz, favorito na disputa a chanceler federal, e a AfD – partido com retórica nacionalista e postura anti-imigração.
No fim de janeiro, Merz contou com o apoio da AfD para aprovar uma moção no Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão, propondo a ampliação das restrições à entrada de migrantes. Até então, o partido de ultradireita seguia isolado pelos demais membros do Bundestag. A medida desencadeou críticas de que Merz rompeu com esse compromisso.
Lideranças políticas também marcaram presença nos protestos. Em Hanover, o ministro da Defesa, Boris Pistorius, do Partido Social Democrata (SPD), falou, durante discurso, que a aproximação com a AfD foi uma quebra de tabu. "A porta da extrema direita deve permanecer fechada", disse Pistorius.
Houve protestos em outras cidades alemãs, como Colônia, Leipzig e Berlim.
O chanceler federal Olaf Scholz apoiou os protestos e classificou as manifestações como um "forte símbolo de compromisso com a Constituição".
Protesto em Hanôver reuniu mais de 24 mil pessoasFoto: Moritz Frankenberg/dpa/picture alliance
Dedo mindinho
Enquanto pessoas iam para as ruas protestar contra a aproximação do centro com a ultradireita, o candidato a chanceler Friedrich Merz insistiu que seu partido não consideraria "nenhum tipo de cooperação, muito menos coalizão" com a AfD.
"Eu trairia a alma da CDU se estendesse a mão, mesmo com meu dedo mindinho, para esse tipo de política", disse Merz a uma multidão, durante conferência da União Social Cristã (CSU), partido irmão na Baviera, na cidade de Nuremberg.
O líder da CDU também defendeu que uma vitória eleitoral seria a melhor maneira de conter a ascensão da AfD. A aliança CDU/CSU está à frente na maioria das pesquisas – em torno de 30% das intenções de voto.
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Por que a AfD é vista como uma ameaça?
Os alemães vão às urnas a cada quatro anos para eleger os membros do Parlamento, que escolhem o chefe de governo da Alemanha.
A AfD atualmente ocupa o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, com cerca de 20% de apoio. Se os números se confirmarem, o partido irá aumentar sua influência na política nacional, com a segunda maior bancada do Bundestag. No último pleito, em setembro de 2021, o partido obteve 10% dos votos.
O partido que faz alemães temerem a volta do nazismo
10:28
Assim como o recém-eleito presidente americano Donald Trump, o partido tem idéias ultranacionalistas, defende posições duras contra imigrantes e controle mais rígido de fronteiras. Uma parcela do partido já esteve sob observação da inteligência alemã por suspeita fundamentada de afronta à Constituição e à ordem democrática alemã.
Há um ano, membros do partido foram acusados de participar de um encontro com neonazistas na cidade de Potsdam, em que teria sido discutida a deportação em massa de milhões de imigrantes e "cidadãos não assimilados". O episódio gerou forte indignação e ampliou as preocupações sobre o avanço de políticas ultranacionalistas no país.
Alguns membros da AfD fizeram declarações que relativizam crimes nazistas.
Em janeiro de 2025, por exemplo, durante uma conversa transmitida ao vivo com Elon Musk, a candidata a chanceler federal do partido, Alice Weidel, afirmou que Adolf Hitler era "comunista" e expressou opiniões que minimizavam o impacto do nazismo.
sf (AFP, ots)
Os principais partidos alemães
São eles: Partido Social-Democrata (SPD), União Democrata Cristã (CDU), União Social Cristã (CSU), Partido Liberal Democrático (FDP), Alternativa para a Alemanha (AfD), Verdes, Esquerda e Aliança Sahra Wagenknecht (BSW)
Foto: picture-alliance/dpa
União Democrata Cristã (CDU)
Fundada em 1945, a CDU se considera "popular de centro". Seus governos predominaram na política alemã do pós-guerra. O partido soma em sua história seis chanceleres federais, entre eles Helmut Kohl, que governou por 16 anos e conduziu o país à reunificação em 1990, e Angela Merkel, a primeira mulher a assumir o cargo, em 2005.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Dedert
Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD)
Integrante da Internacional Socialista, o SPD é uma reconstituição da legenda homônima fundada em 1869 e identificada com as classes trabalhadoras. Na Primeira Guerra, ele se dividiu em dois partidos, ambos proibidos em 1933 pelo regime nazista. Recriado após a Segunda Guerra, o SPD já elegeu quatro chanceleres federais: Willy Brandt, Helmut Schmidt, Gerhard Schröder e Olaf Scholz.
Foto: Thomas Banneyer/dpa/picture alliance
União Social Cristã (CSU)
Igualmente fundada em 1945, a CSU só existe na Baviera, onde a CDU não conta com diretório local. Os dois partidos são considerados irmãos. A CSU tem como objetivo um Estado democrático e com responsabilidade social, fundamentado na visão cristã do mundo. Desde 1949, forma no Bundestag uma bancada conjunta com a CDU.
Foto: Peter Kneffel/dpa/picture alliance
Aliança 90 / Os Verdes (Partido Verde)
O partido Os Verdes surgiu em 1980, após três anos participando de eleições como chapa avulsa, defendendo questões ambientais e a paz. Em 1983, conseguiu formar uma bancada no Bundestag. Oito anos depois, o movimento Aliança 90 se fundiu com ele. Em 1998 participou com o SPD pela primeira vez do governo federal.
Foto: Christophe Gateau/dpa/picture alliance
Partido Liberal Democrático (FDP)
O Partido Liberal Democrático (FDP, na sigla em alemão) foi criado em 1948, inspirado na tradição do liberalismo e valorizando a "filosofia da liberdade e o movimento pelos direitos individuais". O partido é tradicionalmente um membro minoritário de coalizões de governo federais
Foto: Hannes P Albert/dpa/picture alliance
A Esquerda (Die Linke)
Die Linke (A Esquerda, em alemão) surgiu da fusão, em 2007, de duas agremiações esquerdistas: o Partido do Socialismo Democrático (PDS), sucessor do Partido Socialista Unitário (SED) da extinta Alemanha Oriental, e o Alternativa Eleitoral por Trabalho e Justiça Social (WASG, criado em 2005, aglutinando dissidentes do SPD e sindicalistas).
Foto: DW/I. Sheiko
Alternativa para a Alemanha (AfD)
Fundada em 2013, inicialmente como uma sigla eurocética de tendência liberal, a AfD rapidamente passou a pender para a ultradireita, especialmente após a crise dos refugiados de 2015-2016. Com posições radicalmente anti-imigração, membros que se destacam por falas incendiárias, a legenda tem vários diretórios classificados oficialmente como "extremistas" pelas autoridades
Foto: Martin Schutt/dpa/picture alliance
Aliança Sahra Wagenknecht (BSW)
A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) é um partido fundado em janeiro de 2024 pela mulher que lhe dá o nome, uma ex-parlamentar do partido Die Linke (A Esquerda) que defende uma mistura de política econômica de esquerda e retórica social de direita. Nas suas primeiras eleições, o partido tomou parte do espaço que era ocupado pela Esquerda.
Foto: Anja Koch/DW
Os pequenos
Há numerosos partidos menores na Alemanha, como Os Republicanos (REP) e o Heimat (Pátria), ambos de extrema direita, ou o Partido Marxista-Leninista (MLPD), de extrema esquerda. Outros defendem causas específicas, como o Partido dos Aposentados, o das mulheres, dos não eleitores, ou de proteção dos animais. E mesmo o Violetas, que reivindica uma política espiritualista.