Qual o risco do investimento "circular" entre empresas de IA
7 de agosto de 2026
Relatos de que a Nvidia negocia oferecer apoio financeiro de quase 250 bilhões de dólares à OpenAI para um gigantesco projeto de data centers revelam os dois lados do boom da inteligência artificial (IA).
Por um lado, isso mostra a dimensão colossal dos recursos financeiros e do potencial da IA. Por outro, expõe os riscos de um sistema de financiamento chamado "circular", que está no coração do ecossistema da IA. A pergunta é: se uma peça de dominó cair, as outras cairão junto?
"A natureza interconectada do ecossistema de IA é real", afirma Gary Tan, gestor de portfólio da Allspring Global Investments. "Mas os riscos no curto prazo são mitigados por sólidos balanços patrimoniais, fluxos de caixa e qualidade de crédito dos principais atores que financiam a expansão."
Jan Frederik Slijkerman, estrategista de tecnologia do ING, afirma que a robustez financeira de empresas como Nvidia, Microsoft, Amazon e Alphabet (dona do Google) ajuda a mitigar esses riscos. Ele ressalta que o grau de colaboração no que diz respeito à IA é "fascinante", mas não vê um risco sistêmico devido a esse tipo de interdependência.
O modelo circular
O financiamento circular geralmente funciona da seguinte forma: uma empresa paga outra por um produto ou serviço, faz um investimento nela ou concede um empréstimo ou contrato de leasing. Em seguida, essa empresa que recebeu os aportes passa a comprar produtos ou serviços da primeira companhia. Essa alternativa é observada em diversos negócios ligados à IA.
Para muitos, a revolução da IA começou com o lançamento do ChatGPT, desenvolvido pela OpenAI, em novembro de 2022. As capacidades do chatbot levaram a inteligência artificial ao grande público. Seu sucesso rapidamente atraiu um investimento de 10 bilhões de dólares da Microsoft, o que permitiu à empresa desenvolver modelos ainda mais poderosos.
Em contrapartida, a OpenAI tornou-se uma cliente estratégica dos serviços de nuvem da Microsoft, área na qual a empresa vem aumentando continuamente seus investimentos à medida que o boom da inteligência artificial ganha força.
Esse acordo acabou servindo de modelo para negociações futuras. Amazon e Alphabet passaram a investir bilhões de dólares na Anthropic, rival da OpenAI e criadora do bem-sucedido chatbot Claude. Em troca, a Anthropic utiliza os serviços de nuvem da Amazon e do Google, além de comprar chips dessas empresas.
Nvidia, a "rainha da selva"
Ainda assim, tudo isso é peixe pequeno diante do que a Nvidia trouxe para a mesa. "A Nvidia está no centro do ecossistema da IA, atuando não apenas como fornecedora de tecnologia, mas também como investidora estratégica que ajuda a acelerar a adoção de sua plataforma", afirma Tan.
Segundo Slijkerman, a Nvidia desempenha um papel fundamental ao contribuir para o desenvolvimento de uma ampla gama de novos negócios, da área da saúde à direção autônoma. "Seus investimentos ajudam a impulsionar o crescimento do ecossistema de IA como um todo, ao mesmo tempo que facilitam a implantação da infraestrutura necessária para a inteligência artificial", afirma.
A notícia de que a Nvidia negocia fornecer 250 bilhões de dólares à OpenAI, revelada inicialmente pelo Wall Street Journal, seria apenas o mais recente megainvestimento financiado pela empresa, avaliada em 4,6 trilhões de dólares.
A empresa de Jensen Huang está no centro do boom da IA graças aos seus chips, líderes de mercado. Desde 2024, a Nvidia tem investido pesadamente em diversas startups de IA, incluindo OpenAI, Mistral e aSpaceX, de Elon Musk. Em contrapartida, todas essas empresas se comprometem a usar chips da Nvidia.
A companhia também passou a investir fortemente nas chamadas "neoclouds", como CoreWeave e Nebius. Essas startups alugam capacidade de armazenamento em nuvem voltada para aplicações de IA. Além de investir nelas, a própria Nvidia também contrata serviços de nuvem.
Neste ano, a Nvidia aumentou os investimentos e fez novos acordos. Recentemente, a empresa fechou uma parceria com o conglomerado sul-coreano SK Group no valor de até 500 bilhões de dólares.
Ao longo de 2026, esse tipo de negociação circular tornou-se ainda mais evidente em todo o setor. A OpenAI fechou acordos que somam quase 1 trilhão de dólares com empresas como Microsoft e a fabricante de chips Advanced Micro Devices (AMD), chegando se tornar uma das maiores acionistas da AMD.
Microsoft e Nvidia também fizeram investimentos significativos na Anthropic, e a Anthropic comprometeu-se a ampliar compras de armazenamento em nuvem e chips fornecidos por ambas.
Vantagens – e riscos
A dimensão dessa simbiose tem vantagens. "Ecossistemas interligados podem acelerar a inovação ao alinhar os incentivos de fornecedores de infraestrutura, desenvolvedores de modelos, empresas de aplicações e usuários finais, ajudando novas tecnologias a ganhar escala mais rapidamente", afirma Gary Tan.
Slijkerman diz não considerar essa tendência de financiamento circular uma forma de "engenharia financeira". "Essas relações fazem sentido do ponto de vista estratégico porque ajudam os participantes a ampliar seu alcance de mercado e acelerar a adoção de novas tecnologias", afirma. "Além disso, elas podem gerar benefícios financeiros mútuos."
Mas há riscos. Os temores de uma possível "bolha da IA" continuam pairando sobre os mercados globais. As ações de empresas de tecnologia e de fabricantes de semicondutores caíram vertiginosamente na semana passada, em meio a dúvidas sobre a rentabilidade do setor diante das quantias gigantescas investidas em data centers e em outras frentes ligadas à IA.
Se as receitas geradas pela inteligência artificial não crescerem o suficiente, empresas que receberam aportes dos grandes grupos do setor poderão enfrentar dificuldades financeiras. Nesse cenário, elas podem reduzir ou interromper a compra de produtos dessas mesmas empresas que as financiaram, enquanto suas avaliações de mercado tendem a cair.
Alguns analistas têm traçado paralelos com a bolha das empresas de internet e o colapso que se seguiu, depois que as avaliações dessas companhias dispararam nos primeiros anos da web, na década de 1990. O financiamento circular também desempenhou um papel naquela crise. Ainda assim, muitos observadores acreditam que o boom da IA está apoiado em fundamentos mais sólidos.
"Embora algumas empresas ou modelos de negócio específicos possam acabar decepcionando, o ciclo mais amplo de investimentos parece ser sustentado por uma demanda real e pela efetiva geração de valor econômico", afirma Slijkerman.
Tan concorda e afirma que um risco ainda maior para o setor no futuro está ligado aos juros. Na avaliação dele, uma alta das taxas de juros poderia ter um impacto significativo sobre muitas empresas de IA, já que elas levarão anos para se tornar lucrativas e tendem a ser mais penalizadas nesse cenário.
"Os fluxos de caixa da inteligência artificial estão projetados para um horizonte de longo prazo. Por isso, a trajetória da curva de juros talvez acabe sendo mais importante do que a própria disponibilidade de capital", finaliza o gestor da Allspring Global Investments.
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