Qual será o destino do urânio enriquecido do Irã?
11 de maio de 2026
O programa nuclear do Irã é fonte de conflito há décadas, e duas gerações de iranianos já o associa à guerra. A insistência do regime no enriquecimento de urânio expôs o país a pesadas sanções, e algumas estimativas calculam o prejuízo econômico direto em cerca de 3,5 trilhões de dólares (R$ 17 trilhões).
Ao longo dos recentes conflitos militares e dos frágeis cessar-fogos entre Teerã e Washington, o programa voltou a ocupar o centro das atenções. Acredita-se que Teerã tenha mais de 440 quilos de urânio já enriquecido a 60%, muito acima do necessário para fins civis. Teoricamente, esse material poderia chegar a 90% em um período relativamente curto, tornando-se adequado para uso em armas nucleares.
EUA querem tomar posse de material nuclear do Irã
O presidente dos EUA, Donald Trump, costuma se referir ao material como "poeira nuclear", em referência a um bombardeio americano de junho de 2025 às instalações de Fordo, Natanz e Isfahan, no qual ele afirma ter "obliterado" o programa nuclear do Irã.
No entnato, Trump declara repetidamente que pretende tomar posse desse estoque nuclear, mas apresenta versões contraditórias sobre como isso ocorreria. Em uma das afirmações, disse que usaria escavadeiras, com auxílio de Teerã, para desenterrá-lo debaixo dos escombros, presumivelmente após um acordo de paz.
Já na semana passada, pareceu indicar que os EUA "sofrerão um impacto" porque terão que "fazer uma jornada até o Irã para pegar a arma nuclear". Nesta segunda-feira, o primeiro-ministro israelense afirmou que ouviu de Trump o interesse de entrar no Irã e retirar o material enriquecido do país.
O Irã ainda não confirmou nenhum acordo envolvendo a transferência de seu estoque. Em entrevista à emissora americana CBS, em março, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, disse que o material permanece sob os escombros após o ataque do ano passado e que não há qualquer programa ou plano para recuperá-lo.
Localização do estoque nuclear do Irã é incerta
No entanto, Araghchi também não exclui a possibilidade de diluir o urânio altamente enriquecido como parte de um acordo futuro com os EUA.
Reportagens recentes indicam que o país avalia diluir parte de seu estoque enquanto transfere o restante para um terceiro país. Neste fim de semana, o presidente russo Vladimir Putin afirmou que Moscou está pronta para armazenar o urânio enriquecido do Irã.
Ainda assim, não está claro onde o material se encontra nem quais desafios técnicos precisariam ser superados para acessá-lo. As três principais instalações nucleares do Irã — Fordo, Natanz e Isfahan — sofreram danos severos durante a operação americana no ano passado.
Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), disse no fim de abril de 2026 que a maior parte desse urânio altamente enriquecido provavelmente segue localizada no complexo nuclear de Isfahan.
Segundo ele, 18 contêineres azuis, que se acredita transportarem cerca de 200 quilos de urânio enriquecido, entraram em um túnel no Centro de Tecnologia Nuclear de Isfahan em 9 de junho de 2025, apenas quatro dias antes do início da guerra daquele ano, que durou 12 dias.
Outros, no entanto, oferecem uma perspectiva diferente, incluindo especulações de que o material esteja agora armazenado em Fordo ou na usina nuclear iraniana de Bushehr.
O Irã indicou que só recuperaria o material sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
"Remover esse material do Irã não é tecnicamente impossível, mas também depende de muitos outros fatores. Sob rigorosa supervisão da AIEA, o material poderia ser transportado e retirado do país. Medidas especiais de segurança teriam de ser observadas. Como o Irã armazena urânio enriquecido no subsolo, em Fordo, o acesso físico é difícil", afirmou Roland Wolff, especialista em física médica e proteção radiológica.
Líbia como modelo?
Os desafios técnicos envolvidos na remoção de mais de 440 quilos de urânio enriquecido são apenas um lado da equação, sendo provável que as questões de segurança tenham prioridade.
John Bolton, ex-embaixador dos EUA na ONU e conselheiro de segurança nacional durante o primeiro mandato de Trump, apontou para o desmantelamento do programa de armas nucleares da Líbia no início dos anos 2000, observando que o processo ocorreu em um "ambiente permissivo", e não em meio a um conflito.
"No caso do programa de armas nucleares da Líbia, por exemplo, que era muito menor e estava em um estágio muito mais inicial do que o do Irã, é verdade, em 2003 e 2004, autoridades dos EUA e do Reino Unido entraram e literalmente empacotaram tudo e levaram para Oak Ridge, no Tennessee, onde está até hoje", disse Bolton à DW.
"Acho que poderíamos fazer algo semelhante com o programa do Irã em um ambiente permissivo, mas levaria muito mais tempo porque ele está muito mais avançado", continuou.
Regime se mantém apesar de queda de líderes
Bolton também disse à DW que "a única maneira de ter certeza de que o Irã não terá capacidade de produzir armas nucleares é remover o regime dos aiatolás e a Guarda Revolucionária".
O regime sofreu um baque após o assassinato de Ali Khamenei em 28 de fevereiro, mas, desde então, Trump não indicou se tentará uma mudança real de regime no país.
"Eles podem fazer concessões temporárias. Eu não confiaria que cumpririam seus compromissos no longo prazo, mas parece que estamos caminhando nessa direção, em que pode haver restrições, inibições ou outras medidas tomadas contra o programa nuclear, mas a realidade fundamental [de que o Irã ainda teria a capacidade de desenvolver de armas nucleares] permaneceria."