Quem é o ex-presidente condenado por tráfico solto por Trump
2 de dezembro de 2025
Sentenciado a 45 anos de prisão por facilitar envio de mais de 400 toneladas de cocaína aos EUA em troca de propina, Juan Orlando Hernández é do mesmo partido de candidato apoiado por Trump à Presidência de Honduras.
Juan Orlando Hernández governou Honduras de 2014 a 2022 e foi elogiado no passado por Trump como parceiro no combate ao narcotráficoFoto: Elmer Martinez/AP Photo/picture alliance
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Condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão por tráfico de drogas, o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández (2014-2022), foi libertado nesta segunda-feira (01/12), após ser indultado pelo presidente americano Donald Trump .
A informação consta de registros atualizados do Escritório Federal de Prisões (BOP), e foi confirmada pela mulher de Hernández, Ana García.
"Depois de quase quatro anos de dor, de espera e de provas difíceis, meu esposo voltou a ser um homem livre, graças ao perdão presidencial outorgado pelo presidente Donald Trump", escreveu ela no X.
"A verdade sempre prevalece", celebrou Ana García, reproduzindo um versículo bíblico muito evocado também por outro aliado de Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro : "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará."
Hernández havia sido extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022 e sentenciado em março de 2024. Além da pena privativa de liberdade, foi condenado a pagar uma multa no valor de 8 milhões de dólares.
O político de 57 anos cumpria pena em uma prisão federal de alta segurança em Hazelton, no estado da Pensilvânia.
Ele pertence ao mesmo Partido Nacional do conservador Nasry Asfura, candidato à Presidência de Honduras incensado por Trump como aliado na luta contra o "narcocomunismo" e que tem boas chances de se eleger ao cargo .
Hernández teria ajudado a traficar 400 toneladas de cocaína para os EUA
Promotores americanos acusaram Hernández de orquestrar, ao longo de mais de 20 anos, um lucrativo esquema de tráfico de drogas que teria inundado os EUA com mais de 400 toneladas de cocaína.
Seu elo com o narcotráfico teria começado em 2004, quando Hernández ainda era deputado. A campanha vitoriosa que o levou à Presidência de Honduras em 2013 teria sido irrigada com dinheiro do crime – incluindo uma propina de 1 milhão de dólares paga pelo megatraficante mexicano El Chapo , para assegurar a livre passagem de navios carregados de cocaína.
Hernández, que sempre negou envolvimento com o crime e se diz vítima de "perseguição política", acabou reeleito em 2017. Mesmo impopular , já no primeiro mandato de Trump, seguiu sendo tratado por Washington como um parceiro regional no combate à imigração irregular e ao narcotráfico – até o irmão dele, Tony, ser preso em 2018 em Miami sob suspeita de ligação com traficantes.
O próprio Hernández acabaria preso e extraditado para os EUA em 2022, semanas após deixar a Presidência de um dos países mais pobres , violentos e corruptos da América Central.
"O ex-presidente foi uma figura central em um dos maiores e mais violentos esquemas de tráfico de cocaína do mundo. Hernández usou os lucros do tráfico de drogas para financiar sua ascensão política e, uma vez eleito presidente, utilizou os recursos de aplicação da lei, militares e financeiros do governo de Honduras para ampliar seu esquema de tráfico de drogas", declarou à época a chefe do DEA, agência americana de combate às drogas, Anne Milgram.
Um comunicado do Departamento de Justiça americano publicado após a condenação afirmava que, enquanto foi presidente, Hernández "promoveu publicamente legislações e os esforços que alegava realizar em apoio às medidas antinarcóticos em Honduras" enquanto, "ao mesmo tempo, protegia e enriquecia os traficantes de drogas de seu círculo próximo e aqueles que lhe ofereciam subornos alimentados por cocaína, permitindo que conquistasse e mantivesse o poder".
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Vítima de uma "armação"?
Trump havia anunciado que planejava indultar Hernández, alegando que o governo do ex-presidente Joe Biden "armou uma cilada" para o ex-governante hondurenho.
Enquanto críticos consideram que o indulto enfraquece a luta contra o narcotráfico, defensores do perdão presidencial apontam irregularidades no julgamento.
Hernández pediu o indulto a Trump por meio de uma carta na qual o elogiava e recordava a colaboração entre os dois países durante o primeiro mandato do republicano, de acordo com o portal Axios, que teve acesso ao documento.
"Nosso pai foi vítima de uma conspiração entre a esquerda radical e o narcotráfico", afirmou em novembro uma das filhas dele, Ana Daniela, em postagem nas redes sociais. "João Orlando nunca foi o vilão. Na verdade, foi o presidente que resgatou Honduras do narcotráfico e do crime organizado."
Honduras, um país com cerca de 10 milhões de habitantes, tem um longo histórico de relações com os EUA: primeiro como produtor de bananas, depois como base estratégica para ações de contra-insurgência de Washington na América Latina e, nos dias atuais, como parceiro no combate ao tráfico de drogas .
Como relata o New York Times , o país virou nos anos 2000 uma parada importante na rota da cocaína, que sai da América do Sul e chega aos EUA pela fronteira com o México. Foi nessa época que as taxas de homicídio dispararam no país. O tráfico prosperou especialmente após o golpe que depôs o presidente esquerdista Manuel Zelaya, em 2009.
Ex-presidentes latino-americanos que já foram presos
Mais de uma dúzia de líderes de países da região, como Brasil, Argentina, Honduras, Peru, Bolívia e Panamá foram detidos nos últimos anos.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Luis Arce (Bolívia)
O ex-presidente da Bolívia Luis Arce foi preso pouco mais de um mês de deixar o cargo. A prisão ocorreu no âmbito de uma investigação contra Arce, que governou a Bolívia entre 2020 e 2025, por suposto desvio de recursos do Fundo Indígena, destinado ao desenvolvimento de comunidades indígenas e camponesas.
Condenado por liderar uma trama golpista após a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares. Em novembro de 2025, teve prisão preventiva decretada e no mesmo mês começou a cumprir pena
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.