1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW
Leis e JustiçaBósnia e Herzegovina

Quem era Ratko Mladic, o "açougueiro da Bósnia"

Zoran Arbutina
27 de agosto de 2026

Ex-general sérvio-bósnio Ratko Mladic foi sentenciado à prisão perpétua por genocídio e crimes contra a humanidade. Responsabilizado por massacres em Srebrenica e Sarajevo, ele ainda era, para muitos sérvios, inocente.

Ratko Mladic, em 2021
Ratko Mladic foi condenado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra na Bósnia-HerzegovinaFoto: Jerry Lampen/REUTERS

A lista de acusações contra o general sérvio-bósnio Ratko Mladic, que morreu nesta quinta-feira (27/08), é longa. Inclui os crimes de genocídio, graves violações da Convenção de Direitos Humanos de Genebra e crimes contra a humanidade.

Entre abril de 1992 e julho de 1995, com seu exército sérvio-bósnio, ele atacou, saqueou e destruiu cidades e vilarejos inteiros na Bósnia-Herzegovina. Milhares de mortos, deslocamentos forçados e estupros da população não sérvia durante o conflito teriam a sua assinatura.

A Guerra da Bósnia deixou cerca de 100 mil mortos e provocou o deslocamento de 2,2 milhões de pessoas.

Mladic foi responsabilizado pelo cerco de três anos e pelo bombardeio de Sarajevo, durante o qual milhares de civis morreram por fogo de artilharia, morteiros, disparos de tanques de guerra e de franco-atiradores na capital bósnia.

Além disso, ele teria preparado e comandado o massacre de Srebrenica em julho de 1995, quando foram executados cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios que haviam buscado refúgio em uma área declarada protegida pelas Nações Unidas.

Ele respondeu a 11 processos por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra na Bósnia-Herzegovina de maio de 1992 até o fim de 1995 e foi considerado em 2017 culpado em dez deles. Em 2021, começou a cumprir prisão perpétua.

"Atirem somente em carne humana!"

"Atirem somente em carne humana! Só em carne humana! Eles não têm nada, eles têm apenas algumas armas simples – só isso". Este foi um comando dado por Ratko Mladic aos seus soldados pelo rádio durante o ataque a Srebrenica, então uma zona protegida pela ONU.

Massacre de Srebrenica é considerado o pior episódio de violência em solo europeu desde a Segunda Guerra MundialFoto: Samir Jordamovic/Anadolu Agency/IMAGO

Os soldados obedeceram: em poucos dias e diante dos olhos dos capacetes azuis das Nações Unidas, 30 mil bosniaks, como são conhecidos os muçulmanos bósnios, foram deslocados de suas casas. Os cerca de 8 mil homens e meninos foram executados e enterrados em valas comuns.

Foi o maior massacre na Europa depois da Segunda Guerra Mundial – tornando o processo contra Mladic no Tribunal Penal Internacional da ex-Iugoslávia (TPII), em 2017, um dos mais destacados de crimes de guerra desde os julgamentos de comandantes nazistas pelo Tribunal de Nurembergue.

Nacionalismo e revanchismo

No ápice da carreira militar, o general Ratko Mladic era um inflamado nacionalista. Ele mesmo se via como o vingador dos sérvios por séculos de dominação turca nos Bálcãs. A imprensa internacional o apelidou de "açougueiro da Bósnia".

Mas Mladic iniciou a trajetória profissional como um comunista convicto. Nascido em 1943 no leste da Bósnia, ele tinha dois anos quando seu pai, um dos partisans (guerrilheiros comunistas) do marechal iugoslavo Josip Broz Tito, foi morto pelas milícias fascistas croatas Ustase. Anos depois, ele frequentou a academia militar iugoslava em Belgrado, formando-se como o melhor aluno da turma.

Mladic em 1993, após reunião de paz fracassada em Sarajevo: influência considerávelFoto: Reuters/Stringer

No início da guerra de independência da Croácia, em junho de 1991, quando os sérvios que viviam naquele país se revoltaram contra a emancipação, o então coronel do Exército iugoslavo Mladic se tornou comandante do 9º corpo de Exército na cidade croata de Knin. Sua tarefa: organizar milícias sérvias e apoiá-las na luta contra a independência da Croácia. As cidades de Sibenik e Zadar foram bombardeadas sob seu comando, e a população croata, expulsa das localidades próximas.

Em maio de 1992, Mladic assumiu a mesma incumbência na Bósnia-Herzegovina: promovido a general, ele se tornou comandante das tropas sérvio-bósnias e lutou para estabelecer uma ligação entre as áreas dominadas por sérvios no leste e no oeste do país. Ordenou pessoalmente o cerco e o bombardeio da capital Sarajevo.

Publicamente, Mladic sempre afirmou que os ataques visavam alvos militares. Mas um comando pelo rádio, interceptado na época, revela: "Vocês precisam bombardear os edifícios da Presidência e do Parlamento". Ouve-se uma explosão. "Não há muitos sérvios ali. Vamos destruí-los [os bosniaks]".

Contra planos internacionais de paz

Para muitos observadores internacionais, o robusto e musculoso Mladic se tornou símbolo do desprezo do Ocidente pelos sérvios. "Fronteiras são sempre definidas com sangue, assim como Estados são marcados por túmulos", teria dito o ex-general.

Apesar de ser oficialmente subordinado ao líder político sérvio-bósnio Radovan Karadzic, Ratko Mladic tinha influência considerável no interior da liderança dos sérvios da Bósnia. Ele nunca foi apenas um soldado. Em 1993, por exemplo, ele teria conseguido convencer o Parlamento sérvio-bósnio a recusar o plano de paz dos intermediadores internacionais David Owen e Cyrus Vance.

Foragido durante anos, Mladic foi preso em 2011, 17 anos após o fim da guerraFoto: picture-alliance/dpa

No dia 25 de julho de 1995, ainda antes da assinatura do Acordo de paz de Dayton que encerrou a guerra na Bósnia, Mladic foi indiciado junto a Karadic diante do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia por crimes cometidos na Bósnia-Herzegovina. Um ano depois, a nova presidente da República Sérvia, Biljana Plavsic, exonerou Mladic como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.

Mladic desapareceu na clandestinidade, aparentemente com o apoio de políticos sérvios e do Exército. Ele não se escondeu muito: sempre seguro de que teria o apoio de seus ajudantes, ele foi visto em restaurantes e estádios de futebol por várias vezes.

O impenitente

Em maio de 2011, Mladic acabou sendo preso na Sérvia – a pressão internacional sobre o então governo sérvio havia crescido demais. Desde o fim da guerra, foram precisos 17 anos para levar o comandante das tropas sérvio-bósnias à Justiça.

O Acordo de Dayton encerrou o banho de sangue, dividindo a Bósnia entre a entidade semiautônoma da República Sérvia e a Federação da Bósnia e Herzegovina. A medida não acabou com a divisão étnica, nem impediu o ressurgimento do separatismo sérvio.

Antes do pronunciamento da sentença de prisão perpétua, em 2017, Mladic ficou seis anos em Haia, durante um processo que durou 523 dias e que ouviu cerca de 600 testemunhas. O general sempre insistiu em sua inocência, chamando as acusações de "repugnantes" e o tribunal de "satânico".

Quando ainda estava foragido, Mladic ameaçou seus perseguidores, dizendo que sempre carregava uma pílula de veneno consigo e que não seria capturado vivo. Ele não tomou o veneno. Na prisão, sobreviveu a três AVCs (Acidente Vascular Cerebral).

Sua filha se suicidou com tiros no final da guerra, em 1994, por não aguentar mais viver sob a sombra dos crimes dos quais o pai era acusado de ter cometido na Croácia e na Bósnia-Herzegovina. Ela usou a mesma pistola que Mladic recebeu como melhor cadete de sua turma na academia militar.

Mladic cumpria prisão perpétua em Haia. Autoridades sérvias e familiares haviam pedido sua libertação por razões humanitárias devido ao agravamento de seu quadro clínico, mas os pedidos foram rejeitados pelo tribunal internacional.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

Srebrenica: um genocídio no coração da Europa

03:13

This browser does not support the video element.

Pular a seção Manchete

Manchete

Pular a seção Outros temas em destaque