Para analistas, trégua favorece o Irã, com alívio de sanções e reconhecimento político. "Para o Irã, é o acordo do século", diz especialista. EUA evitam crise maior, enquanto israelenses ficam mais isolados.
Trump assinando o acordo provisório durante evento em Versalhes, na FrançaFoto: Daniel Torok/White House/ZUMA/picture alliance
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Os Estados Unidos e o Irã assinaram nesta semana um acordo de paz provisório , com ambos os lados reivindicando vitória no conflito iniciado pelos EUA e Israel em fevereiro.
O acordo suspendeu imediatamente os combates, como queriam as duas partes, desgastadas após mais de 100 dias de guerra. Foram mais de 7.000 mortos, principalmente no Irã e no Líbano, incluindo o então líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, e outras figuras do alto escalão do regime de Teerã.
Os dois países concordaram com a reabertura do estreito de Ormuz, canal por onde passa um quinto do petróleo do mundo, cujo bloqueio fez disparar os preços de energia e alimentos. E acertaram também o fim do bloqueio naval dos EUA à navegação iraniana e o fim de sanções ao Irã.
O presidente Donald Trump afirmou que assinou o acordo para evitar uma "catástrofe econômica" no país, em meio a uma queda de popularidade de seu governo. Seu vice, J.D. Vance, definiu o momento como uma "vitória para o povo americano", afirmando que os EUA irão ditar o resultado da próxima rodada de negociações, mesmo sem garantias de como fazê-lo.
J.D. Vance disse que acordo final vai impedir que o Irã tenha armas nucleares, mesmo sem um caminho claro para isso Foto: Andrew Leyden/ZUMA/picture alliance
Do lado iraniano, para além dos efeitos práticos, o acordo é uma demonstração de força, de que o país foi capaz de sobreviver à guerra sem se render.
"Para Washington e Teerã, este é um grande acordo — o acordo do século, sem volta", disse o comentarista libanês Sarkis Naoum à Reuters. "A probabilidade de sucesso supera o risco de fracasso. O Irã não pode suportar mais sofrimento econômico sob sanções, e Trump não tem incentivo para iniciar uma nova guerra."
O acordo prevê um cessar-fogo por 60 dias, incluindo no Líbano, para permitir negociações sobre um acordo permanente. Só então serão tratadas questões mais espinhosas em torno do programa nuclear iraniano.
Irã fortalecido
Apesar do tom de vitória dos dois lados, adversários do regime iraniano afirmam que as obrigações mais imediatas do Irã são bem menos abrangentes do que as assumidas pelos Estados Unidos.
Presidente iraniano, Massud Peseschkian, ao assinar acordo remotamente, de TeerãFoto: Iran's Presidential website/WANA/REUTERS
Analistas apontam que, se o acordo se mantiver, o Irã parece garantir o resultado mais favorável: o fim da guerra, o alívio gradual de sanções, a retomada das exportações de petróleo e a perspectiva de vultosos recursos para sua reconstrução — além de uma aceitação implícita de seu sistema político.
O Memorando de Entendimento, como é chamado o documento do acordo, define que Washington começará a suspender seu bloqueio naval, concederá isenções para as exportações de petróleo iraniano, vai liberar ativos iranianos congelados em bancos no exterior e flexibilizar sanções. algumas delas impostas há décadas. Há ainda um plano de reconstrução e desenvolvimento econômico para o Irã no valor de pelo menos 300 bilhões de dólares.
"Fomos derrubar o regime com apoio dos EUA e acabamos com Washington, na prática, dando legitimidade e fortalecendo o mesmo regime que queríamos derrubar", disse à Reuters o analista israelense Danny Citrinowicz, que descreveu o acordo como uma "catástrofe" estratégica.
Segundo o pesquisador sênior sobre o Irã no Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, o acordo não atende a nenhuma das principais exigências de Israel: não há restrições ao programa de mísseis do Irã nem a seus grupos aliados, e tampouco um caminho claro para desmantelar suas instalações nucleares.
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Alívio econômico aos EUA
O acordo parece já ter trazido algum alívio econômico aos americanos, com a queda dos preços do petróleo e do gás para níveis pré-conflito, uma vez que o Irã concordou em ajudar a garantir a passagem comercial segura pelo estreito de Ormuz – como acontecia antes da guerra.
O regime de Teerã reiterou seu compromisso de não buscar a posse de armas nucleares, uma promessa antiga que os EUA e seus aliados há muito consideram vazia. Teerã também se mostrou disposta a negociar sobre o futuro de seu urânio altamente enriquecido e de seu programa de enriquecimento.
Mas o acordo deixa para depois os tópicos mais sensíveis, como a possibilidade de o Irã manter reservas de urânio após a entrada em vigor de um acordo final, ou sobre o direito de enriquecer urânio.
O único parágrafo do acordo preliminar que aborda o programa nuclear exige que o Irã faça a "diluição" do material nuclear enriquecido no Irã, mas não exige que o país entregue esse material.
Israel mais isolado
Israel e a milícia libanesa Hezbollah, apoiada pelo Irã, não estão citados explicitamente no acordo, mas o fim dos ataques no Líbano é uma das condições impostas pelo regime iraniano para o cessar-fogo prosperar.
O acordo vincula o Líbano ao cessar-fogo de 60 dias, em meio a ataques de Israel no sul do país Foto: Stringer/REUTERS
O presidente libanês, Joseph Aoun, afirmou na semana passada que o Irã não pode negociar em nome do Líbano em questões como o cessar-fogo e a retirada israelense do sul do país.
Mas fontes próximas ao Hezbollah defendem o contrário: que a via EUA-Irã fortalece a posição do Líbano ao elevá-lo a um nível mais alto de negociação. Na visão deles, Teerã e Washington podem pressionar seus respectivos aliados — Hezbollah e Israel — a chegar a um acordo.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, no entanto, tem se recusado a se retirar. Ele afirmou na quinta-feira que as forças israelenses permanecerão em uma "zona de segurança" no sul do Líbano enquanto "as necessidades de segurança de Israel assim o exigirem". Nesta sexta-feira, os israelenses continuaram a realizar ataques sangrentos no Líbano, colocando pressão sobre o acordo.
Trump, por sua vez, criticou abertamente as recentes ações de Netanyahu, afirmando, um dia antes da assinatura do acordo com o Irã, que "sem os Estados Unidos não haveria Israel". Declarações semelhantes também foram feitas posteriormente pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, que advertiu os israelenses a não se voltarem contra os americanos, afirmando que Trump era "o único chefe de Estado em todo o mundo que demonstra simpatia pelo país neste momento".
Países do Golfo comemoram com cautela
Grandes prejudicados pela guerra, os países do Golfo Pérsico estão mudando seu pensamento estratégico após o acordo. Para eles, o Irã se consolida como uma força regional duradoura, enquanto a proteção dos EUA não é mais vista como uma garantia de estabilidade, segundo analistas.
Ataques iranianos atingiram ou ameaçaram instalações, bases militares, infraestrutura energética e rotas marítimas na região, especialmente nos países próximos ao estreito de Ormuz.
Países como Catar, Kwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Omã, de modo geral, manifestaram apoio ao cessar-fogo, mas exigem garantias de que o Irã não voltará a atacar alvos na região.
sf (RT, AP, ots)
Veja alguns dos principais acontecimentos do mês.
Foto: REUTERS
Moscou em chamas após onda de ataques ucranianos
A Ucrânia atingiu uma grande refinaria de petróleo em Moscou pela segunda vez em uma semana, lançando enormes nuvens de fumaça negra sobre a capital e interrompendo voos em seus aeroportos, em um dos maiores ataques com drones desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, há mais de quatro anos, segundo autoridades. (18/06)
Foto: REUTERS
G7 expressa unidade no apoio à Ucrânia
No comunicado de encerramento da cúpula do G7 na França, os líderes do grupo afirmaram que permanecem unidos para apoiar a Ucrânia, incluindo em sua integridade territorial, e concordaram em aumentar as sanções contra a Rússia. A unidade expressada no texto conjunto foi considerada relevante em um momento tenso entre os EUA do presidente Trump e seus aliados ocidentais. (17/06)
Foto: Michael Kappeler/dpa/picture alliance
"Estamos no mesmo time"
O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, aproveitou a reunião do G7 para presentear o presidente dos EUA, Donald Trump, com uma camiseta personalizada da seleção alemã de futebol com o número 47 – o republicano, que completou 80 anos no último domingo, é o 47º presidente americano. "Afinal, estamos no mesmo time", comentou o alemão mais tarde, em uma postagem no X. (16/06)
Foto: Thibault Camus/AP Photo/picture alliance
Filho da princesa da Noruega é condenado a 4 anos de prisão por estupro
Filho mais velho da princesa herdeira da Noruega, Marius Borg Hoiby, de 29 anos, foi considerado culpado em duas das quatro acusações de estupro que pesavam contra ele. Preso desde fevereiro, ele também foi condenado por agressão e abuso em relacionamentos íntimos, e terá de pagar uma indenização às vítimas. (15/06)
Foto: Håkon Mosvold Larsen/NTB/AFP
Protesto contra G7 tem confronto com a polícia em Genebra
Manifestantes entraram em confronto com a polícia, incendiaram um carro da Tesla e danificaram um banco e uma agência da ONU. O protesto se dirigia contra as sete maiores economias do mundo, o G7, que se encontrariam a partir do dia seguinte na vizinha França para a sua cúpula anual. Autoridades suíças e francesas mobilizaram milhares de policiais para garantir a segurança do encontro. (14/06)
Foto: Denis Balibouse/REUTERS
Operação de EUA e Venezuela mata líder de gangue
O chefe da organização criminosa Tren de Aragua, conhecido como Niño Guerrero, foi morto em uma operação militar dos Estados Unidos realizada em coordenação com as autoridades da Venezuela. A ex-vice-presidente Delcy Rodríguez governa o país sul-americano sob pressão da Casa Branca desde janeiro, quando os EUA capturaram Nicolás Maduro, sob acusação de narcotráfico. (13/06)
Foto: Donald Trump via Truth Social/REUTERS
Elon Musk se torna o primeiro trilionário da história
O bilionário Elon Musk se tornou o primeiro trilionário da história com a entrada da sua empresa SpaceX no mercado de ações. Segundo a Oxfam, ele seria mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial juntos, ou 3,8 bilhões de pessoas. Foi a maior oferta pública inicial (IPO) já registrada, superando o recorde da petrolífera saudita Aramco. (12/06)
Foto: STAR MAX/IPx/picture alliance
Começa a Copa do Mundo de 2026
A Copa do Mundo da Fifa começou com uma partida entre México e África do Sul na Cidade do México. A seleção mexicana marcou o primeiro gol do campeonato, depois da cerimônia de abertura. Do lado de fora, houve confronto entre policiais e manifestantes, que pediam justiça para desaparecidos. O megaevento esportivo acontece, neste ano, em três países: México, Estados Unidos e Canadá. (11/06)
Foto: Eloisa Sanchez/REUTERS
UE alerta para "extremos climáticos como novo normal"
O mundo registrou o segundo maio mais quente da história, informou o serviço climático da União Europeia (UE), o Copernicus. A onda de calor precoce só não superou as temperaturas de 2024. Neste ano, recordes foram registrados em vários países da Europa Ocidental. Isso demonstra "como extremos climáticos estão rapidamente se tornando o novo normal, em vez da exceção", segundo o Copernicus. (10/06)
Foto: Jerome Gilles/NurPhoto/picture alliance
Deputados da Hungria cortam próprio salário em 40%
Parlamentares na Hungria votaram por unanimidade a favor de um corte nos próprios salários e benefícios, numa iniciativa do novo primeiro-ministro, Péter Magyar, para reduzir custos administrativos. O recém-empossado chefe do governo húngaro acusava o seu antecessor, Viktor Orbán, de conceder salários inflados para apaziguar deputados da oposição. (09/06)
Foto: Denes Erdos/AP Photo/picture alliance
Peru tem disputa acirrada em eleição presidencial
O candidato de esquerda nas eleições presidenciais no Peru, Roberto Sánchez, assumiu a liderança na contagem de votos do segundo turno das eleições peruanas, superando por uma pequena margem a candidata de direita Keiko Fujimori em uma disputa cujo resultado permanece incerto. Com cerca de 450 mil cédulas contestadas que ainda precisam ser revisadas, anúncio do vencedor deve levar dias. (08/06)
Foto: Stifs Paucca/REUTERS
Israel, Hezbollah e Irã trocam ataques, e conflito ameaça sair do controle de novo
O Irã disparou mísseis contra Israel em retaliação ao bombardeio, horas antes, de posições do Hezbollah no Líbano. Regime em Teerã tem condicionado um acordo definitivo de paz na região à inclusão de Beirute. Escalada irritou o presidente americano Donald Trump, que está sob pressão por causa dos impactos econômicos da guerra no Oriente Médio. (07/06)
Foto: Ohad Zwigenberg/AP Photo/picture alliance
UE vai barrar carne brasileira a partir de 3 de setembro
A União Europeia confirmou a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar carne de boi e frango, peixe, frutos do mar e mel para o bloco. Argumento é que o país não forneceu garantias suficientes sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária. Argentina, Paraguai e Uruguai, membros do Mercosul, seguem com exportações liberadas. (06/06)
Foto: Silvio Avila/AFP
EUA alertam para pior cenário do surto de ebola
O Centro para Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos EUA exigiu a adoção de medidas rigorosas de saúde pública contra o atual surto de ebola. O órgão alerta que a epidemia caminha para atingir a magnitude da ocorrida na África Ocidental em 2014, que resultou em mais de 28 mil casos e mais de 11 mil mortes. Mais pacientes devem ser diagnosticados, isolados e tratados, afirma a agência. (05/06)
Foto: Xinhua/picture alliance
Fiéis lotam Marcha para Jesus em São Paulo
Uma multidão encheu a Marcha para Jesus, realizada em São Paulo no feriado de Corpus Christi. A programação incluiu shows e orações nos arredores da Estação da Luz. Participaram diversos políticos conservadores, bem como o advogado-geral da União, Jorge Messias. Em tom de campanha, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil vive uma "guerra espiritual". (04/06)
Foto: Miguel Schincariol/AFP
Greve geral contra reforma trabalhista paralisa Portugal
Pela segunda vez em seis meses, uma greve geral paralisou Portugal, em protesto à reforma trabalhista proposta pelo governo. Estimados 65% dos voos foram cancelados, inclusive ao Brasil. Foram ainda afetados outros transportes, hospitais, escolas e coleta de lixo. Para sindicatos, a reforma desregulamenta jornadas, amplia contratos precários, facilita demissões e ataca direitos. (03/06)
Foto: Armando Franca/AP Photo/picture alliance
Urso ataca quatro pessoas em Fukushima, no Japão
Quatro pessoas ficaram feridas após sofrerem ataques de um urso na cidade de Fukushima, no nordeste do Japão. Todos os feridos foram levados ao hospital e estavam conscientes. Entre as vítimas, apenas uma sofreu ferimentos mais graves. (02/06)
Sírio que esfaqueou 4 pessoas na Alemanha pega prisão perpétua
Um sírio de 36 anos foi condenado à prisão perpétua por quatro tentativas de homicídio na Alemanha com motivação terrorista. De acordo com decisão da Justiça alemã, o homem, identificado como Mahmoud M., foi considerado culpado de "tentativa de homicídio" em quatro casos, na qualidade de "membro de uma organização terrorista estrangeira" – no caso, o grupo Estado Islâmico (EI). (01/06)