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Quem pode frear o poder da Fifa?

3 de julho de 2026

Embora a popularidade da Copa do Mundo continue crescendo, a Fifa, que organiza o torneio, talvez nunca tenha sido tão criticada. Mas reformar a entidade não é tarefa simples.

Gianni Infantino, em coletiva de imprensa, segura a bola de futebol da Copa 2026
Gianni Infantino tem sido alvo de muitas críticas externas, mas parece intocável dentro da FifaFoto: Takuya Yoshino/AP Photo/picture alliance

Os olhos do mundo estão na Copa do Mundo: nos gols de Lionel Messi, na história do goleiro cabo-verdiano Vozinha, nos vídeos virais de torcedores nas arquibancadas.

Toda essa paixão pelo futebol acabou desviando o foco de questões que marcaram a preparação para o torneio. Muitos argentinos tiveram vistos negados para acompanhar Messi, a mãe de Vozinha só conseguiu autorização especial para viajar após o destaque do filho na competição, e os fãs que aparecem nas imagens costumam ser justamente aqueles que conseguem pagar os altos preços dos ingressos.

Relação entre Infantino e Trump desgasta confiança

A credibilidade da Fifa também foi afetada pela proximidade entre seu presidente, Gianni Infantino, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A decisão de conceder a Trump o primeiro Prêmio da Paz da Fifa, em dezembro passado, poucos meses antes do início de um conflito envolvendo o Irã — país participante da Copa — foi considerada unilateral por críticos e teria aprofundado a desconfiança dentro e fora da entidade.

Trump esteve em destaque quando o Chelsea ergueu o troféu do Mundial de Clubes no ano passadoFoto: Seth Wenig/AP/picture alliance

Ao mesmo tempo, a Fifa está preparando o caminho para a Copa de 2034 na Arábia Saudita. Para isso, decidiu distribuir jogos da edição anterior por Europa, África e América do Sul, o que eliminou concorrentes potenciais. Infantino também deverá permanecer no cargo além do limite tradicional de 12 anos, sem enfrentar oposição relevante.

Como a Fifa mantém seu poder?

A Fifa é responsável tanto pelo desenvolvimento global do futebol quanto pela exploração comercial do esporte. Para muitos especialistas em governança, essa combinação concentra poder excessivo em uma única organização.

A Copa do Mundo é a principal fonte de receitas da entidade. Mais recentemente, a Copa do Mundo de Clubes ampliada tornou-se outra importante fonte de renda.

O problema, segundo jogadores e sindicatos, é que o calendário ficou excessivamente congestionado.

"Não acho que os jogadores sejam realmente ouvidos, para ser sincero", afirmou o atacante inglês Harry Kane antes da realização do torneio de clubes.

A estrutura da Fifa também reforça o poder de sua liderança. Cada uma das 211 federações nacionais filiadas tem direito a um voto na eleição presidencial realizada a cada quatro anos. Essas federações recebem recursos financeiros por meio de diversos programas da entidade.

Cabo Verde empatou com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita e se classificouFoto: Marco Bello/REUTERS

Para Miguel Maduro, ex-presidente do Comitê de Governança e Revisão da Fifa, o dinheiro é a base do sistema de poder da organização.

"A dimensão comercial é o alicerce do sistema de poder da Fifa. O dinheiro é usado pelos presidentes para acumular e consolidar poder", afirmou à DW.

Segundo ele, esses recursos sustentam uma rede de patronagem que recompensa aliados e desestimula críticas, explicando por que presidentes em exercício raramente enfrentam oposição.

União Europeia poderia pressionar a Fifa?

Assim como Maduro, Nick McGeehan, da organização de direitos humanos FairSquare, acredita que qualquer reforma significativa precisará vir de fora da entidade.

Para ele, a União Europeia seria uma das poucas instituições capazes de impor mudanças.

"É necessária uma intervenção política. Não há outra forma de consertar a Fifa", disse à DW.

A FairSquare apresentou uma denúncia ao Comitê de Ética da Fifa sobre a relação de Infantino com Trump. Separadamente, grupos de torcedores europeus também encaminharam reclamações à Comissão Europeia sobre o elevado preço dos ingressos da Copa.

Até o momento, porém, Bruxelas tem evitado indicar qualquer intenção de confrontar diretamente a entidade máxima do futebol.

UEFA e Fifa vivem tensão crescente

As relações entre a Fifa e a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA)também atravessam um momento delicado.

Lionel Messi tornou-se o maior artilheiro da história da Copa do MundoFoto: Maria Lysaker/IMAGN Images/REUTERS

No ano passado, representantes da UEFA abandonaram um congresso da Fifa em protesto contra Infantino, a quem acusaram de priorizar "interesses políticos privados" após uma viagem diplomática ao Oriente Médio ao lado de Trump.

Segundo Geoff Walters, professor de negócios esportivos da Universidade de Liverpool, qualquer ruptura dentro do futebol mundial teria que partir da UEFA ou de uma coalizão de federações europeias.

Mas ele ressalta que desafiar a Fifa pode trazer custos elevados, como perda de influência política ou de oportunidades para sediar grandes eventos internacionais.

Uma separação seria viável?

Apesar das tensões, um rompimento parece improvável. A UEFA já enfrentou sua própria crise quando grandes clubes europeus tentaram criar uma Superliga independente em 2021. Além disso, a influência da Europa e da América do Sul não é tão dominante quanto parece.

A base de apoio político de Infantino está fortemente concentrada na Ásia e na África. Isso reduz a possibilidade de uma rebelião bem-sucedida liderada apenas pelas principais potências do futebol.

Também há preocupação com o impacto sobre países menores. Uma eventual divisão poderia comprometer programas de desenvolvimento e reduzir recursos para federações que dependem fortemente do financiamento da Fifa.

Os argumentos da Fifa

Infantino rejeita as críticas e afirma que a estratégia comercial da entidade beneficia o futebol global.

"Cada dólar que arrecadamos retorna ao futebol", disse antes do torneio.

Segundo ele, a Fifa investe em países que normalmente recebem pouca atenção internacional, como Sudão do Sul e Butão.

Palestinos assitem a um jogo da Copa em um campo de refugiadosFoto: Ramzi Abu Amer/JNA Press/Nexpher Images/Sipa USA/picture alliance

Por enquanto, essa continua sendo uma realidade difícil de contestar. Nenhuma outra organização possui alcance global semelhante nem recursos comparáveis para promover o futebol em tantos países.

Reforma ainda parece distante

Embora as críticas à Fifa estejam mais intensas do que em anos anteriores, especialistas acreditam que mudanças profundas continuam improváveis no curto prazo.

Sem a mobilização de governos, grandes federações ou figuras influentes do futebol, a estrutura de poder da entidade permanece amplamente intacta.

Por isso, mesmo em um momento de crescente insatisfação, a possibilidade de ruptura ou de reformas significativas ainda parece remota.

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