RD Congo e Ruanda assinam acordo de paz mediado pelos EUA
28 de junho de 2025
De olho nas terras raras da República Democrática do Congo, governo Donald Trump negocia tratado para encerrar conflito que já dura mais de 30 anos.
Marco Rubio, chefe da diplomacia americana (centro), mediou acordo para encerrar conflito que tem raízes no genocídio de Ruanda, em 1994Foto: Mandel Ngan/AFP/Getty Images
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República Democrática do Congo e Ruanda assinaram nesta sexta-feira (27/06) um acordo de paz mediado por Estados Unidos e Catar para encerrar um conflito no leste do Congo que se arrasta desde a década de 1990 e produziu mais de 7 milhões de refugiados. Em troca, a Casa Branca espera abrir o acesso de empresas americanas a terras raras na região e impulsionar negócios bilionários.
Pelo acordo, os dois países se comprometem a deixar de apoiar grupos guerrilheiros e a desarmar milícias, a cessar hostilidades e a respeitar a integridade territorial. O texto também prevê a retirada de tropas ruandesas do leste da RD Congo dentro de até 90 dias.
O objetivo é reduzir os riscos das cadeias de suprimento de minerais e estabelecer cadeias de valor "que conectem ambos os países, em parceria, conforme apropriado, com os EUA e investidores americanos".
Trump alertou que imporá "penalidades muito severas, financeiras e de outra natureza" em caso de violação dos termos.
O acordo foi festejado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, e o chefe da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf. Seu real significado e beneficiários, contudo, ainda não estão totalmente claros.
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Adesão de rebeldes do M23 é incógnita
A trégua vem após o M23, milícia rebelde tutsi ligada a Ruanda, avançar sobre o leste da RD Congo neste ano e se apossar de duas das maiores cidades da região e de áreas lucrativas de mineração. O acordo não menciona explicitamente esse fato, mas apela a Ruanda para que cesse "medidas de defesa".
O país teria enviado ao menos 7 mil soldados ao leste da RD Congo para apoiar o M23 na invasão deste ano, segundo analistas e diplomatas citados pela Reuters.
Ruanda sempre negou ter apoiado diretamente o M23, mas negociou a inclusão no acordo da "neutralização" de outro grupo armado, o Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR), criado por hutus ligados ao massacre de tutsis em 1994 no genocídio de Ruanda.
Especialistas da ONU acusam a Ruanda de usar o M23 para extrair e exportar minerais, algo que o país nega.
O M23 é um dentre os mais de 100 grupos armados que, estima-se, atuam no leste da RD Congo. Num sinal preocupante, membros da milícia indicaram que não estarão sujeitos ao acordo.
"Devemos reconhecer que há uma grande porção de incerteza em nossa região e além, porque muitos acordos anteriores não foram implementados", pontuou o ministro ruandês do Exterior, Olivier Nduhungirehe.
Acordo de paz entre a RD Congo e Ruanda pede o desarmamento do grupo rebelde M23, mas não tem mecanismos que assegurem issoFoto: Arlette Bashizi/REUTERS
"Um monte de direitos minerais do Congo" para os EUA
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse a repórteres que o acordo mediado por seu governo põe fim a "uma das piores guerras que já se viu" e vai assegurar aos EUA "um monte de direitos minerais do Congo".
A RD Congo tem enormes reservas de minerais que incluem lítio e cobalto, vitais na fabricação de carros elétricos e outras tecnologias avançadas. A China, grande rival do EUA, detém as maiores reservas desses e outros minerais.
O documento foi assinado em Washington pelos ministros do Exterior congolês, Therese Kayikwamba Wagner, e ruandense.
Wagner celebrou o tratado como uma "rara chance de virar a página", mas frisou que "algumas feridas nunca vão desaparecer totalmente".
Já Nduhungirehe destacou que a cooperação entre os dois países e os benefícios decorrentes do acordo vão render "dividendos tangíveis" para ambos.
Violência de gênero preocupa ONU
A crise humanitária na RD Congo já foi descrita pelas Nações Unidas como "uma das mais prolongadas, complexas e graves do planeta".
Tom Fletcher, da agência da ONU para coordenação de assuntos humanitários (Enucah), disse à DW que, na falta de controles externos para garantir a paz no terreno, é "muito importante assegurar que todos cumpram esse processo de paz."
"Fiquei verdadeiramente chocado com o índice de violência contra as mulheres", afirmou Fletcher sobre o rastro deixado pelo conflito neste ano na cidade de Goma, na fronteira com Ruanda, que viveu o pior das atrocidades e dos combates. "Embora este processo de paz traga uma vida diferente para essas comunidades, precisamos fortalecer o direito internacional e proteger as pessoas. Temos que perguntar: essa paz ajudará a protegê-las contra crimes sexuais, violência sexual?"
A ONU afirma que o estupro tem sido usado histórica e sistematicamente como arma de guerra no Congo por rebeldes do M23 e outros grupos que lutam para expandir sua influência.
No entanto, o acordo de paz mediado por americanos e cataris não aborda diretamente a violência sexual, nem inclui medidas de justiça ou reparação.
Outro ponto do texto que foi alvo de críticas é a ausência de referência ao papel das forças ruandesas no conflito e a pouca atenção a se e como exatamente integrar grupos rebeldes às forças militares, uma estratégia que já deu errado no passado.
ra (AFP, Reuters, AP, DW)
O genocídio de Ruanda
O genocídio de Ruanda, em 1994, chocou o mundo. Na época, a comunidade internacional assistiu de braços cruzados – sobretudo França e a ONU – ao assassinato de cerca de 800 mil pessoas.
Foto: Timothy Kisambira
Estopim do genocídio
No dia 6 de abril de 1994, o avião em que viajava o então presidente de Ruanda, Juvénal Habyarimana, foi derrubado por um foguete quando se aproximava da capital Kigali. O atentado matou Habyarimana, o presidente do Burundi e outros oito ocupantes da aeronave. No dia seguinte, começam os massacres, que duraram três meses e custaram a vida de pelo menos 800 mil ruandeses.
Foto: AP
Vítimas escolhidas a dedo
Depois do assassinato do presidente, extremistas hutus começaram a atacar membros da minoria tutsi e hutus moderados. Os assassinos estavam bem preparados e escolhiam suas vítimas entre ativistas de direitos humanos, jornalistas e políticos. Entre as primeiras vítimas, no dia 7 de abril de 1994, estava a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana.
Foto: picture-alliance/dpa
Resgate de estrangeiros
Enquanto nos dias posteriores milhares de ruandeses eram mortos diariamente em Kigali e no interior, forças especiais belgas e francesas retiram do país cerca de 3.500 estrangeiros. Paraquedistas belgas resgataram em 13 de abril os sete funcionários alemães da Deutsche Welle em Kigali, juntamente com suas famílias. Apenas 80 dos 120 empregados locais da emissora sobreviveram ao genocídio.
Foto: P.Guyot/AFP/GettyImages
Grito de socorro
Já no início de 1994, o comandante das tropas de paz da ONU, o canadense Roméo Dallaire, tinha indícios de um planejado extermínio da população tutsi. Sua mensagem à ONU, conhecida como o "fax do genocídio", enviada em 11 de janeiro, foi rejeitada. Os apelos posteriores do general durante o genocídio também foram ignorados pelo então chefe das operações de manutenção da paz, Kofi Annan.
Foto: A.Joe/AFP/GettyImages
Mídias do ódio
O filme "Hate Radio", do diretor suíço Milo Rau (foto), lembra a estação de rádio Mille Collines (RTLM) que, junto ao jornal semanal "Kangura" incitava o ódio contra os tutsis. Kangura, por exemplo, publicou já em 1990 os "Dez mandamentos hutus", com alto teor racista. A Mille Collines, popular pela música pop e pela cobertura esportiva, fazia chamadas diárias pela perseguição e morte de tutsis.
Foto: IIPM/Daniel Seiffert
Refúgio no hotel
Em Kigali, Paul Rusesabagina escondeu mais de mil pessoas no Hotel des Mille Collines. Depois que o gerente belga deixou o país, Rusesabagina o sucedeu no cargo. Com muito álcool e dinheiro, ele conseguiu impedir as milícias hutus de matar os refugiados. Em muitos outros refúgios, as vítimas não conseguiram escapar de seus assassinos.
Foto: Gianluigi Guercia/AFP/GettyImages
Massacres em igrejas
Mesmo igrejas, onde muitos buscaram refúgio, não foram respeitadas. Cerca de 4 mil homens, mulheres e crianças foram mortos na igreja de Ntarama, perto de Kigali, por assassinos portando machados e facões. Hoje, a igreja é um dos muitos memoriais do massacre. Crânios e ossos humanos, além de buracos de bala nas paredes, lembram até hoje o genocídio.
Foto: epd
O papel da França
Paris manteve laços estreitos com o regime hutu. Quando os rebeldes da Frente Patriótica Ruandesa (FPR) já tinham ganhado terreno sobre os autores de genocídio, em junho, o Exército francês entrou em ação. Ele permitiu que soldados e milicianos responsáveis pelo genocídio fossem com armas para o Zaire, atual República Democrática do Congo.
Foto: P.Guyot/AFP/GettyImages
Fluxo de refugiados
Durante os massacres, milhões de ruandeses, tutsis e hutus, fugiram para os países vizinhos Tanzânia, Zaire e Uganda. Só no Zaire (hoje RDC), foram dois milhões de refugiados. Ex-membros do Exército e os autores de massacres fundaram as Forças Democráticas pela Libertação de Ruanda, que são até hoje um fator de insegurança no leste do Congo.
Foto: picture-alliance/dpa
Tomada de Kigali
Diante da Igreja da Sagrada Família, em Kigali, patrulham em 4 de julho de 1994 rebeldes da RPF. Nessa época, eles já haviam libertado a maioria das regiões do país e forçado os assassinos a baterem em retirada. Ativistas de direitos humanos se queixam, no entanto, que os rebeldes também cometeram crimes pelos quais ninguém foi responsabilizado até hoje.
Foto: Alexander Joe/AFP/GettyImages
Fim do genocídio
O general Paul Kagame, líder da RPF, declarou em 18 de julho de 1994 o fim da guerra contra as forças do governo. Os rebeldes assumiram o controle da capital e outras grandes cidades. A princípio, empossaram um governo provisório. Desde o ano 2000, Kagame é o presidente de Ruanda.
Foto: Alexander Joe/AFP/GettyImages
Cicatrizes permanentes
O genocídio durou quase três meses. A maioria das vítimas foi brutalmente assassinada com facões. Vizinhos mataram vizinhos. Cadáveres e partes de corpos de bebês, crianças, adultos e idosos se amontoavam ao longo das ruas. Poucas famílias foram poupadas. Não só as cicatrizes nos corpos dos sobreviventes mantêm viva a memória do genocídio.