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Reino Unido rejeita indenizar Jamaica pela escravidão

8 de setembro de 2026

Ilha caribenha entregou petição ao rei Charles 3º e deve levar questão para a Justiça. Ministra jamaicana diz que país ainda sofre reflexos do tráfico internacional de escravizados.

Símbolo da libertação da escravidão na Casa de Knip
Ao menos 12,5 milhões de africanos foram sequestrados, transportados à força por navios europeus e vendidos como escravizados entre os séculos 15 e 19Foto: Raul Arboleda/AFP

O governo do Reino Unido manifestou posição contrária aos apelos pelo pagamento de reparações pela escravidão, depois que o governo da Jamaica apresentou uma petição dirigida ao rei Charles 3º durante uma visita nessa segunda-feira (07/09).

A ministra jamaicana da Cultura, Olivia Grange, está encabeçando uma delegação "para dar continuidade à campanha da Jamaica em prol de reparações para os ancestrais africanos que sofreram durante centenas de anos de escravidão", informou o ministério em comunicado divulgado no domingo.

A realeza britânica moderna expressou remorso pelo brutal comércio de escravizados que enriqueceu seus ancestrais, mas não chegou a apresentar um pedido formal de desculpas nem assumiu qualquer compromisso com reparações.

O governo do Reino Unido também descartou a possibilidade de indenizações. "Nossa posição é clara: o Reino Unido não faz e não fará reparações", afirmou um porta-voz do gabinete do primeiro-ministro Andy Burnham, em Downing Street.

"O tráfico transatlântico de escravizados foi abominável e, é claro, é correto que reconheçamos os erros do passado, mas continuaremos a olhar para frente e a trabalhar com outros países nos desafios comuns que enfrentamos atualmente", acrescentou o porta-voz.

Via jurídica para indenizações

A petição solicita ao rei que responda a três questões sobre a legalidade do tráfico transatlântico de escravizados ao mais alto tribunal de apelação da ilha caribenha, com sede em Londres: se a escravidão de africanos na Jamaica era legal segundo a legislação inglesa; se ela violava o direito internacional; e se o Reino Unido tem, atualmente, a obrigação legal de oferecer reparação.

"Assim que obtivermos essas respostas, nossos advogados decidirão qual será o próximo passo", acrescentou Grange.

Charles – que continua sendo o chefe de Estado da Jamaica, embora o país tenha tomado medidas para destituí-lo desse cargo – já havia expressado profundo pesar pela escravidão em um discurso dirigido aos líderes da Comunidade Britânica em 2022.

A delegação afirma que é a primeira vez que um país da Comunidade Britânica recorre a essa via jurídica para tratar da questão das reparações. Segundo o Palácio de Buckingham, o rei "já expressou, em diversas ocasiões, seu compromisso pessoal e sincero em promover uma maior compreensão sobre a questão da escravidão e em encontrar maneiras de corrigir injustiças históricas em benefício das comunidades atuais".

Grange também se reunirá com autoridades do Museu Britânico para discutir a devolução de artefatos da era colonial. O rei Charles 3º e sua esposa, a rainha Camilla, devem visitar o Caribe ainda este ano, como parte de uma viagem internacional de nove dias que não inclui a Jamaica.

Herança da escravidão

Pelo menos 12,5 milhões de africanos foram sequestrados, transportados à força por navios europeus e vendidos como escravizados entre os séculos 15 e 19. Defensores dessa causa vêm há muito tempo reivindicando reparações para lidar com o legado contínuo da escravidão, como o subdesenvolvimento econômico e a desigualdade social.

"Há tantas coisas que afetaram negativamente a Jamaica como resultado da escravidão de nossos ancestrais", disse Grange. "Nós achamos importante que, daqui para frente, haja algum apoio que nos ajude a nos reconstruir mais fortes", completou a ministra jamaicana.

A petição da Jamaica, que conta com o apoio da Comunidade do Caribe e do presidente de Gana, John Dramani Mahama, surge depois que um comitê da ONU afirmou, no mês passado, que os países são legalmente obrigados a considerar reparações e tomar outras medidas em relação ao tráfico transatlântico de escravizados para lidar com seu legado duradouro.

Muitos líderes europeus, porém, se opuseram até mesmo a discutir o assunto, e críticos argumentam que os Estados e instituições atuais não devem ser responsabilizados pela escravidão.

Tem havido uma reação cada vez mais forte contra a ideia de indenizações, e o partido populista de direita britânico Reform UK, liderado por Nigel Farage, propôs em abril a recusa de vistos a pessoas de países que estão nesse processo, entre os quais a Jamaica.

Grange, no entanto, afirmou que a campanha está ganhando força: "Há uma tendência global de maior apoio à justiça reparatória. Sempre haverá algumas reações negativas, mas continuamos focados."

fcl/md (AFP, Reuters, AP, DW)

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