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Cúpula Putin-Trump: Parte da Ucrânia poderia mudar de mãos?

14 de agosto de 2025

Grandes áreas do leste e do sul da Ucrânia foram tomadas à força por Moscou. Presidente americano falou em "troca de terras", mas ucranianos não têm trunfo para negociação.

Dois soldados com roupas militares carregam terceiro em treinamento de fuga, enquanto quarto permanece atrás com árma na mão
Região do Donbass, perto de onde ucranianos fazem treinamentos militares, é peça-chave na guerra com a Rússia Foto: Yan Boechat/DW

Quando o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, e seu homólogo russo, Vladimir Putin, se encontrarem no Alasca na sexta-feira (15/08), as duas delegações chegarão com perspectivas geográficas bem diferentes.

Para Washington, a Ucrânia cobre uma área de cerca de 600 mil quilômetros quadrados. Mas Moscou considera que o país é 20% menor, já que vê grande parte do leste ucraniano como território russo.

Trump causou certa confusão geográfica antes do encontro, referindo-se repetidamente a ele como uma reunião "na Rússia" — mesmo que os EUA tenham comprado o Alasca da Rússia em 1867. Em seguida, Trump afirmou querer organizar uma "troca de terras" entre Rússia e Ucrânia.

No entanto, a Ucrânia não controla nenhum território russo que pudesse oferecer. Sua contraofensiva na região russa de Kursk, iniciada em agosto de 2024, está praticamente encerrada.

Falta-lhe, portanto, trunfos territoriais para negociar — o que alimenta receios, por parte da Ucrânia e de seus aliados, de que Trump busque fazê-la ceder território à Rússia.

Territórios ucranianos sob controle russo

Nos últimos anos, a Rússia concentrou esforços em conquistar o leste da Ucrânia. Após a revolução pró-europeia da Maidan, que derrubou o governo pró-Rússia em 2014, tropas russas ocuparam a Península da Crimeia, violando o direito internacional.

Em 18 de março daquele ano, a Rússia anexou oficialmente o território após um "referendo" não reconhecido pelo Ocidente. Combatentes russos então desestabilizaram Donetsk e Lugansk, as duas regiões mais orientais da Ucrânia. Juntas, essas áreas formam o Donbass, a bacia do rio Donets, que deságua no rio Don, na Rússia.

Em 21 de fevereiro de 2022, a Rússia reconheceu como independentes duas autoproclamadas "repúblicas populares” pró-Rússia na Ucrânia. Três dias depois, iniciaria sua invasão em larga escala. 

A Ucrânia conseguiu repelir, em grande parte, as forças que avançaram pelo norte nos meses iniciais do conflito. Ainda assim, a Rússia conquistou áreas no leste com uso intenso da força militar. Além de cerca de dois terços de Donetsk e quase toda a Lugansk, Moscou controla grandes partes das regiões de Zaporíjia e Kherson, no sudeste, embora ainda não as domine completamente.

Em setembro de 2022, a Rússia promoveu novos "referendos" nas quatro regiões para justificar a anexação. Um relatório recente do Conselho da Europa, entretanto, afirma que civis enfrentam violência e coerção nessas áreas. De acordo com o documento, quem recusa a cidadania russa perde acesso a serviços sociais, educação e saúde.

Por que o Donbass importa?

O Donbass é geopoliticamente valioso para a Rússia. A região é rica em depósitos de carvão e minérios, funcionando como um centro importante para as indústrias siderúrgica e química. Acredita-se que também haja depósitos de terras raras, que deverão continuar tendo um papel central no futuro, uma vez que são essenciais à produção de alta tecnologia e energia renovável.

Além disso, as regiões do leste formam um corredor terrestre para a Crimeia, deixando a Ucrânia isolada do acesso ao Mar de Azov.

Com conflitos desde 2014, o Donbass ganhou relevância militar para a Ucrânia. Lá está seu "cinturão de fortalezas", a linha de defesa mais importante na região contra o avanço russo. 

Negociações recentes entre EUA e Rússia teriam focado em concessões territoriais, com a Rússia demandando total controle sobre Donetsk e Lugansk em troca da devolução de Kherson e Zaporíjia. No entanto, uma análise recente do Instituto para o Estudo da Guerra, nos EUA, alerta que conceder Donetsk à Rússia forçaria a Ucrânia a abandonar seu "cinturão de fortalezas" sem garantia de que os combates não voltarão.

O que dizem as Constituições

Após os "referendos", a Rússia alterou sua Constituição para considerar os territórios anexados como seus. Reverter esse ato implicaria enormes obstáculos jurídicos e políticos e seria visto como uma derrota por parte da população russa.

O governo ucraniano, por sua vez, não pode legalmente ceder território. O presidente Volodimir Zelenski invoca frequentemente o artigo 133 da Constituição ucraniana, que cita explicitamente todas as regiões do país, incluindo as do leste e sul atualmente ocupadas pela Rússia. A Constituição contém ainda uma seção separada sobre a Crimeia, cedendo-lhe autonomia parcial.

Já o artigo 2 da Constituição estabelece que "o território da Ucrânia dentro de suas fronteiras atuais é indivisível e inviolável." Qualquer mudança territorial só pode ser aprovada por referendo nacional, e emendas à Constituição só são permitidas após a suspensão da lei marcial.

Segundo o direito internacional, a invasão russa e os "referendos" promovidos por Moscou são ilegais.

O papel da Otan

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, causou polêmica ao declarar à emissora americana ABC que um acordo futuro poderia reconhecer que "a Rússia controla de fato parte do território da Ucrânia." O holandês gerou questionamentos sobre se isso significaria aceitar a rendição de território ucraniano e o redesenho de fronteiras pela força. 

Segundo ele, o Ocidente "nunca poderá aceitar isso juridicamente" e apenas um reconhecimento de fato seria admissível. Rutte citou então o exemplo das embaixadas dos EUA nos Estados bálticos entre 1940 e 1991, quando a União Soviética ocupava Estônia, Letônia e Lituânia. À época, os EUA reconheceram apenas o controle soviético de fato, mantendo laços com opositores da União Soviética.

A cidade ucraniana que aprendeu a viver embaixo da terra

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