Sigla de esquerda "antiwoke" pode levar AfD a ter 1° governo
Marcio Damasceno
7 de setembro de 2026
Legenda de esquerda populista pró-Rússia fundada por ex-comunista se mostrou aberta a fornecer votos decisivos para que ultradireitistas alemães da AfD consigam formar seu 1° governo estadual na Alemanha.
"A AfD venceu a eleição e deve formar o governo", diz Thomas Schulze, líder regional do partido BSWFoto: Klaus-Dietmar Gabbert/dpa/picture alliance
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A vitória esmagadora da Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição estadual deste domingo (06/09) colocou a política alemã diante de um cenário sem precedentes. Embora tenha conquistado 43,8% dos votos e terminado muito à frente dos demais partidos, a AfD não alcançou maioria no Parlamento estadual da Saxônia-Anhalt, tendo garantido apenas 39 deputados estaduais de um total de 83 cadeiras.
Sem maioria isolada, a AfD tem sua chegada ao poder local dificultada pelo chamado "cordão sanitário", no qual as outras legendas se negam a colaborar com sigla de ultradireita – com exceção de uma.
A Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), partido nanico e populista de esquerda socialmente conservadora, que recebeu só 5,3% dos votos no estado, pode desempenhar papel decisivo. A BSW, fundada em 2024, conseguiu eleger 5 deputados estaduais. Somados aos 39 da AfD, é o suficiente para ultrapassar a marca de 42 necessária para garantir maioria.
Nas semanas que antecederam as eleições, a fundadora da sigla, Sahra Wagenknecht, que no passado foi filiada ao antigo partido comunista da Alemanha Oriental, anunciou que a BSW estaria disposta a abrir caminho para que um político da AfD garanta o posto de governador. A colaboração não seria feita por meio de uma aliança formal, mas por meio da abstenção de seus deputados em uma eventual votação decisiva no Parlamento estadual.
A manobra permitiria ao partido de ultradireita emplacar seu governador por maioria simples dos votos, mesmo sem apoio das demais bancadas.
Caso a manobra passe, ela marcaria um resultado histórico para a AfD: o primeiro governo estadual do partido. Para a Alemanha, o resultado também seria impactante, marcando pela primeira vez desde 1945 a ascensão de um governo estadual liderado por uma legenda de ultradireita – com o adicional de que o diretório da AfD na Saxônia-Anhalt é considerado uma "organização extremista de direita" por autoridades de inteligência.
Como a BSW viabilizaria chegada da AfD ao poder
O mecanismo de abstenção contemplado pela BSW está previsto na Constituição da Saxônia-Anhalt. Nos dois primeiros turnos para a escolha do governador pelo Parlamento local, é necessária maioria absoluta dos deputados. Como a AfD não possui sozinha essa quantidade de assentos, dificilmente conseguiria eleger seu candidato nessa fase. Entretanto, se nenhum nome alcançar maioria absoluta e o Parlamento não optar por novas eleições, ocorre um terceiro turno, no qual basta obter maioria simples dos votos válidos. Nesse cenário, abstenções tornam-se decisivas.
Fundadora da BSW, Sahra Wagenknecht, não descarta colaborar com a AfDFoto: dts Nachrichtenagentur/IMAGO
Foi justamente essa possibilidade que o líder regional da BSW, Thomas Schulze, voltou a defender após a eleição. Em entrevista à emissora Deutschlandfunk, ele afirmou que, caso o candidato da AfD, Ulrich Siegmund, se apresente para a disputa, a BSW manterá sua posição de se abster em um eventual terceiro turno.
Na prática, isso pode reduzir o número de votos necessários para a vitória do líder ultradireitista, que teria caminho aberto para formar um governo de minoria com seus 39 deputados. Segundo Schulze, a BSW não pretende se unir com partidos rivais da AfD para reforçar um "cordão sanitário" contra a ultradireita.
Discurso de "respeito ao eleitor"
"A AfD venceu a eleição e deve formar o governo", afirmou Thomas Schulze, acrescentando que vê como uma exigência democrática reconhecer a vontade expressa pelos eleitores.
A BSW insiste que não deseja atuar como "muleta" da ultradireita, mas argumenta que conversar com a AfD não pode ser considerado um tabu.
Thomas Schulze afirmou que sua sigla pretende dialogar com todas as forças parlamentares e identifica convergências, especialmente em temas como a crítica às sanções impostas à Rússia e a defesa de energia mais barata. Ao mesmo tempo, reconheceu divergências importantes em áreas como educação, política social e economia.
O modelo alternativo defendido pela BSW
Oficialmente, a BSW afirma preferir outra saída para o impasse político: a escolha de um "governador suprapartidário", alguém sem vínculo direto com os principais blocos políticos e capaz de governar com apoios variáveis no Parlamento.
A proposta, porém, enfrenta resistência generalizada. Nenhuma das grandes forças políticas demonstrou apoio concreto à ideia. Além disso, nem Wagenknecht nem Thomas Schulze apresentaram até agora um nome que possa exercer esse papel. Analistas ouvidos pela imprensa alemã consideram difícil encontrar uma personalidade vista como verdadeiramente neutra e capaz de reunir apoio amplo entre partidos tão distintos.
Ulrich Siegmund pode se tornar o primeiro governador de ultradireita na Alemanha desde o fim da Segunda GuerraFoto: Matthias Schrader/AP Photo/picture alliance
O partido de Sahra Wagenknecht
Nascida na Alemanha Oriental e antiga filiada do partido comunista que liderou o regime, Wagenknecht, de 57 anos, é conhecida por mesclar bandeiras econômicas típicas da esquerda com posições mais conservadoras em temas sociais, como oposição à imigração irregular e ao "identitarismo" ou "wokismo" — que, na sua visão, enfraquece a coesão social e o senso de comunidade. Além disso, é crítica à guerra de Israel na Faixa de Gaza e abertamente simpática à Rússia de Vladimir Putin, apesar da invasão à Ucrânia.
Por anos, a ex-deputada e outrora comunista convicta foi uma das políticas mais proeminentes do partido A Esquerda, que ela abandonou em 2023 para fundar sua própria sigla após sucessivos conflitos com seus antigos correligionários por causa de suas posições heterodoxas.
Em 2024, junto com outros dissidentes do partido A Esquerda, ela criou a BSW, que a exemplo de Wagenknecht passou a misturar propostas econômicas associadas à esquerda, como forte proteção social e intervenção estatal, com posições conservadoras em temas culturais e migratórios. A trajetória eleitoral da legenda, porém, tem sido irregular. Na eleição federal de 2025, a BSW não conseguiu ultrapassar a claúsula de barreira de 5% para garantir assentos no Parlamento alemão. O partido, no entanto, teve melhor sorte em eleições estaduais no leste alemão, onde chegou a eleger quatro bancadas. No entanto, a BSW costuma ser palco de ferozes brigas internas e recentemente viu uma dessas bancadas debandar no estado da Turíngia.
Além de lidar com a BSW, Wagenknecht é uma das raras líderes políticas da Alemanha que tem questionado abertamente o isolamento político imposto à AfD pelos demais partidos alemães. Em agosto, declarou ao jornal Bild que seu objetivo era substituir o atual governo estadual por uma administração "suprapartidária", apoiada por maiorias variáveis, incluindo a participação da AfD. Caso isso não fosse possível, admitiu a hipótese de a BSW simplesmente se abster na escolha do chefe de governo.
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Teste histórico para a política alemã
A relevância da BSW aumentou na reta final da campanha da Saxônia-Anhalt porque inicialmente cálculos apontavam que sua votação poderia influenciar de maneira decisiva o tamanho da bancada da AfD. Alguns modelos mostraram que se a BSW não conseguisse superar a claúsula de barreira de 5%, a AfD seria beneficiada com uma redistribuição de cadeiras, podendo chegar mais perto da maioria.
Mas a BSW superou a cláusula. E sua entrada também tornou mais difícil a formação de uma frente conjunta entre os demais partidos para bloquear a ultradireita, já que os dirigentes da BSW rejeitam participar de uma coalizão construída exclusivamente para impedir a chegada da AfD ao poder.
O resultado é um impasse que poderá definir os rumos da política alemã nos próximos meses. Se a posição defendida por Thomas Schulze prevalecer e os deputados da BSW realmente se abstiverem em uma votação decisiva, Ulrich Siegmund poderá se tornar o primeiro chefe de governo estadual de ultradireita na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra, marco que até poucos anos atrás parecia impensável.
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