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Somalilândia, o território que quer ser novo país africano

29 de dezembro de 2025

Oficialmente parte da instável Somália, república separatista obteve de Israel o primeiro reconhecimento estrangeiro em 34 anos. Estrategicamente perto do Iêmen, separatistas buscam alianças diplomáticas.

Moradores da Somalilândia celebram com bandeiras da autoproclamada república
Reconhecimento por Israel gerou celebrações nas ruas da SomalilândiaFoto: Farhan Aleli/AFP/Getty Images

Um território árido do Chifre da África, a Somalilândia se considera uma república independente há 34 anos. Mas foi só na sexta-feira (26/12) que a autoproclamada nação que oficialmente faz parte da Somália obteve seu primeiro reconhecimento por parte de um governo estrangeiro. No caso, de Israel.

O gesto israelense agitou o xadrez geopolítico da África, com reprimendas do governo central da Somália, da União Africana (UA) e diversos governos ao redor do mundo.

Um antigo protetorado britânico entre 1884 e o final dos anos 1950, a Somalilândia foi unificada em 1960 ao resto do que hoje é a Somália, que por sua vez tinha sido uma colônia italiana. Parte da população da Somalilândia rejeitou a decisão desde o início, sentimento que daria origem a um movimento separatista pela volta das antigas fronteiras da era colonial.

Em meio ao caos da sangrenta guerra civil que tomou a Somália a partir de 1991, o território da Somalilândia declarou unilateralmente independência. As autoridades centrais da Somália, lidando com conflitos em todos o país e até mesmo a perda da capital, Mogadíscio, para grupos rebeldes, nunca conseguiram retomar o controle da Somalilândia.

Hargeisa é a capital da república da Somalilândia, que declarou independência da Somália em 1991Foto: Luis Tato/AFP

Apesar do isolamento diplomático, o território de 176 mil quilômetros quadrados tem moeda, passaporte e Exército próprios, além de realizar eleições periódicas. A sua população é de 4,5 milhões de pessoas, de acordo com o governo local, e a maioria é muçulmana. Em contraste com o resto da Somália, que até hoje lida com conflitos internos, Somalilândia é um raro território estável na região.

A Somalilândia está estrategicamente localizada no Golfo de Aden, dividindo também fronteiras com Djibuti e Etiópia. Do outro lado da estreita faixa do oceano Índico, está o Iêmen, palco de uma guerra brutal que desde 2015 antagoniza potências regionais e globais. Já o vizinho Djibuti, outra antiga colônia que no passado era chamada de "Somalilândia francesa", abriga bases militares dos Estados Unidos, da China, da França e vários outros países.

"Risco à paz e estabilidade"

A Somália rapidamente rejeitou o reconhecimento da Somalilândia por Israel, afirmando que considera a região parte integral do seu território soberano.

Enquanto isso, a decisão foi celebrada em várias cidades da Somalilândia no domingo, com milhares de pessoas se reunindo num estádio da capital Hargeisa. A bandeira israelense foi hasteada ao lado da bandeira da Somalilândia numa cerimônia transmitida ao vivo pelas televisões da autoproclamada república.

Unificação com o resto da atual Somália fez ascender sentimento separatista no antigo protetorado britânicoFoto: Luis Tato/AFP

"Damos as boas-vindas a todos os países que reconhecem a nossa existência", disse Jama Suleyman, residente em Hargeisa. "Para o povo da Somália, os nossos vizinhos não devem se preocupar com esta vitória. Sabemos que estão fazendo barulho, mas nada impedirá a Somalilândia de mirar alto."

Já o presidente da UA, Mahmoud Ali Youssouf, reiterou que a Somalilândia é parte do território somali. Segundo ele, qualquer tentativa de minar a soberania da Somália representa um risco à paz e à estabilidade na África. 

Vários outros instaram respeito à soberania da Somália, incluindo Qatar, Arábia Saudita, Egito, Turquia, Estados Unidos, China e União Europeia. Uma declaração assinada por 21 países de maiorias muçulmanas alertou para "repercussões sérias" para a paz e a segurança no Chifre da África, no Mar Vermelho e a nível internacional.

Israel contra houthis

Embora não haja razão explícita para a decisão diplomática, a Somalilândia está próxima do Estreito de Bab al-Mandab, onde milícias houthi do Iêmen já repetidamente atacaram navios mercantes supostamente ligados a Israel. 

Após o início da guerra entre Israel e o Hamas, em outubro de 2023, os houthis começaram a atacar Israel com mísseis e drones, numa expressão de apoio aos palestinos na Faixa de Gaza. A força aérea israelense também atingiu alvos ao redor do Iêmen.

O jornal The Times of Israel apontou que o acesso ao território e ao espaço aéreo da Somalilândia tornaria mais fácil atacar e monitorar os houthis. Embora os ataques tenham sido suspensos desde o cessar-fogo em Gaza, os houthis, apoiados pelo Irã, disseram que não permitirão que uma parte da Somália sirva como base para Israel. 

A decisão israelense foi "uma postura hostil dirigida contra a Somália e seus vizinhos africanos, bem como contra o Iêmen, o Mar Vermelho e os países situados em ambas as margens do Mar Vermelho", disse o líder do grupo, Abdul-Malik al-Houthi.

O autoproclamado governo da Somalilândia, por sua vez, afirmou que cooperará com Israel em temas de diplomacia, comércio, tecnologia, agricultura, gestão da água, saúde e segurança. "A Somalilândia busca uma parceria que seja transparente, pacífica e benéfica para ambos os países," disse o ministro de Relações Exteriores, Abdirahman Dahir Adam.

A Somália assumirá em janeiro a presidência rotativa do Conselho de Segurança da Organizações Unidas (ONU), que convocou uma reunião de emergência sobre o tema. 

Busca por alianças

A Somalilândia se proclama como "o país mais democrático do leste da África" e "uma terra de paz, progresso e potencial", enquanto engaja há anos em esforços para obter o reconhecimento de países.

Especialistas avaliam que a sua relativa estabilidade e ganhos democráticos, aliados à obtenção de investimento estrangeiro por conta própria, fortalecem a causa separatista.

Em novembro de 2024, o líder da oposição local foi eleito presidente da Somalilândia, na mais recente de uma série de eleições consideradas justas nas últimas duas décadas. À época, a embaixada dos Estados Unidos na Somália disse que o "impressionante histórico de eleições e transferências de poder pacíficas é um modelo para a região e além."

Os meses anteriores à votação foram marcados por uma escalada de tensão entre Etiópia e Somália, depois que a Etiópia assinou um memorando de entendimento com a Somalilândia.

Nos termos do acordo, a Somalilândia arrendaria um trecho de 20 quilômetros de costa à Etiópia para o estabelecimento de uma base naval. Com uma população estimada em mais de 120 milhões, a Etiópia é o país sem litoral mais populoso do mundo. 

Em troca, a Etiópia reconheceria a independência da Somalilândia. A Somália disse estar disposta a entrar em guerra, pois considera a Somalilândia parte de seu território.

A posição dos EUA em relação aos separatistas também levanta dúvidas. No fim de semana, Trump rejeitou reconhecer a independência do território. No entanto, membros do Partido Republicano já manifestaram apoio a uma iniciativa nesse sentido.

Em dezembro de 2024, o congressista Scott Perry apresentou um projeto de lei propondo o reconhecimento formal dos Estados Unidos à Somalilândia.

Isso ocorreu após a publicação, em abril de 2023, do Projeto 2025, um roteiro para o segundo mandato presidencial de Trump compilado pela Fundação Heritage, um influente think tank da direita americana.

O documento menciona dois territórios africanos na sua seção sobre a África Subsaariana — a Somalilândia e o Djibuti — e propõe "o reconhecimento da soberania da Somalilândia como uma proteção contra a deterioração da posição dos EUA no Djibuti", que vem sendo palco de crescente influência da China.

jps/ht (AP, AFP, dpa, Reuters)

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