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PolíticaAfeganistão

Talibã sobrevive a cinco anos de isolamento no Afeganistão

15 de agosto de 2026

Desde que grupo voltou ao poder em agosto de 2021, conflitos armados arrefeceram e direitos das mulheres foram desmantelados. Governo só é reconhecido pela Rússia, mas outros poderes mantêm laços pragmáticos com Cabul.

Policial afegão controla o trânsito em Cabul
Afeganistão experimentou estabilização da segurança interna sob cinco anos de TalibãFoto: Siddiqullah Alizai/AP Photo/picture alliance

Nos cinco anos desde o retorno do Talibã ao poder, que se completam neste sábado (15/08), o aniversário da queda de Cabul, o Afeganistão assistiu ao arrefecimento dos conflitos armados e à estabilização do contexto de segurança. Mas as restrições impostas a mulheres e meninas, somadas às preocupações ligadas ao terrorismo, comprometem as perspectivas de longo prazo no país, na avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Pouco mais da metade das mulheres afegãs (52%) agora sai de casa apenas uma ou duas vezes por mês, apontaram dados divulgados nesta semana pela ONU Mulheres. Elas vivem no único país a proibir meninas de frequentar o ensino médio e mulheres de irem às universidades. Em contraste, 96% dos homens disseram deixar suas residências diariamente. 

"Meia década após a tomada do poder pelo Talibã, em agosto de 2021, o Afeganistão desmontou sistematicamente os direitos de metade de sua população, tornando-se um caso isolado no mundo, sem paralelo na era moderna," afirmou, em comunicado, a agência dedicada à promoção da igualdade de gênero. 

Segundo a Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (Unama), as restrições geram custos sociais e econômicos, sendo um dos principais obstáculos para a ampliação das relações internacionais do governo afegão e a atração de investimentos. Isso apesar de a redução dos conflitos ter aberto oportunidades de recuperação econômica e de costura de alianças regionais. 

"A paz e a prosperidade sustentáveis exigem mais do que a ausência de conflito", afirmou em comunicado de sexta-feira Georgette Gagnon, representante especial adjunta da ONU para o Afeganistão e chefe interina da Unama. As limitações ao espaço cívico e à liberdade de expressão também reduzem a capacidade do país de se beneficiar da cooperação internacional, de acordo com a Unama. 

O Afeganistão continua politicamente fechado, sem eleições nem Parlamento eleito, outro ponto sensível para a comunidade internacional. As principais decisões se concentram em torno do líder supremo talibã, Hibatullah Akhundzada. Não há oposição com capacidades para disputar o poder, enquanto os meios de comunicação trabalham sob fortes restrições. 

Exclusão das mulheres 

Desde que voltou ao poder em agosto de 2021, o Talibã impediu cerca de 2,4 milhões de afegãs de frequentar o ensino médio, reportou nesta semana a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). 

As autoridades emitiram mais de 100 decretos voltados contra mulheres e meninas desde que assumiram o poder, institucionalizando a discriminação e aprofundando o que a ONU Mulheres classifica como a mais grave crise de direitos das mulheres no mundo. 

Proibições de dança e música pelo Talibã estão entre as restrições que afetam as vidas das mulheres no AfeganistãoFoto: Semenova Maria/SIPA/picture alliance

Medidas adotadas neste ano aboliram a igualdade jurídica entre homens e mulheres perante a lei, reforçaram a autoridade masculina dentro do casamento e dificultaram o acesso das mulheres ao divórcio. O Talibã sustenta que respeita os direitos das mulheres de acordo com sua interpretação da lei islâmica e da cultura afegã. 

As mulheres também seguem amplamente excluídas da economia. Apenas 7% delas estão empregadas, em comparação com 84% dos homens, ainda segundo a ONU Mulheres. 

Crise humanitária e endividamento 

Além disso, o Afeganistão vive uma crise humanitária. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) calculou que 47% dos menores de idade apresentavam quadro de desnutrição no primeiro trimestre deste ano. 

A situação é agravada pela falta de financiamento dos programas internacionais de ajuda, pelas colheitas insuficientes em decorrência das secas e pelo retorno de quase 5,9 milhões de pessoas ao país desde setembro de 2023. 

Ao mesmo tempo, o Talibã conseguiu evitar o colapso que muitos previam como consequência do seu isolamento. A economia cresceu 4,8% em 2025, segundo o Banco Mundial — o que, entretanto, não foi suficiente para absorver o aumento da população, levando a uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) per capita. 

Assim, o Afeganistão produz mais do que há alguns anos, enquanto seus habitantes dispõem, em média, de menos recursos. A contradição se reflete nos lares, onde mais de 80% das famílias estão endividadas e a ampla maioria não consegue atender às necessidades básicas. 

Ambiguidade diplomática 

Homens que, há cinco anos, figuravam em listas de sanções e recompensas internacionais hoje ocupam gabinetes do governo. Antigos comandantes da insurgência talibã recebem delegações estrangeiras, assinam concessões de mineração e negociam acordos de repatriação com autoridades europeias. 

A Unama pede à comunidade internacional que mantenha uma relação "pragmática e baseada em princípios" com as autoridades talibãs, argumentando que o diálogo continua sendo necessário para a estabilidade doméstica e uma eventual reintegração do Afeganistão a nível global. 

O regime construiu relações de trabalho com diversos países, incluindo membros da União Europeia (UE) e Reino Unido, para tratar, entre outros, da contenção às ameaças jihadistas. A melhora da segurança interna convive com o terrorismo, uma fonte de tensão com os países vizinhos.  

Membros armados do Talibã tomaram poder em 15 de agosto de 2021, derrubando governo apoiado pelos EUAFoto: Sidiqullah Khan/AP Photo/picture alliance

Mas só a Rússia reconhece oficialmente o governo talibã. Muitos países ocidentais condicionam qualquer passo nessa direção à implementação de reformas internas, especialmente na área dos direitos humanos. 

Neste ano, autoridades do Tajiquistão, Turcomenistão, Quirguistão, Uzbequistão e Cazaquistão se reuniram em Cabul. Os países da Ásia Central, sem acesso ao mar, buscam rotas comerciais através do Afeganistão para alcançar portos marítimos. 

A China, por sua vez, mantém contatos diplomáticos e econômicos regulares com o governo talibã. Já a Índia, que evacuou sua embaixada em agosto de 2021, primeiro restabeleceu a presença técnica, antes de voltar a elevar sua representação ao status de embaixada em 2025. 

O Talibã, assim, reduz seu isolamento a cada novo movimento de aproximação diplomática. Ao mesmo tempo, possibilita a seus interlocutores evitar assumir o custo político de uma normalização plena. 

O primeiro "Emirado talibã" durou cinco anos, entre 1996 e 2001, e terminou com a invasão americana do Afeganistão. O segundo, iniciado quando o Talibã tomou Cabul numa ofensiva relâmpago contra o governo apoiado pelos Estados Unidos, está prestes a superar essa marca.  

ht (EFE, AFP, Reuters, dpa) 

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