"Terra da cerveja", República Tcheca bebe cada vez menos
7 de maio de 2026
A República Tcheca, com seus 10 milhões de habitantes, pode ser considerada o país da cerveja. Em nenhuma outra nação do mundo se consume tanto a bebida quanto aqui — há décadas, o país no Leste Europeu lidera com folga todos os rankings de consumo per capita de cerveja.
E os bares não são um local onde só se bebe. Eles também são coração de cada cidade tcheca, onde as pessoas se encontram, jogam cartas, discutem sobre a vida, o mundo e a política. As tais "conversas de bar", na forma de obras literárias de Jaroslav Hasek, Bohumil Hrabal e, hoje, também do escritor alemão-tcheco Jaroslav Rudis, tornaram-se parte da literatura europeia e mundial.
Há séculos, a cerveja é uma parte importante da identidade tcheca. Mesmo nos momentos de maior crise econômica durante o comunismo, a marca Pilsner Urquell era exportada para grande parte do mundo. Até hoje, o próprio Papa recebe todos os anos, na Páscoa, algumas caixas abençoadas dessa cerveja. Não se sabe ao certo, porém, se ele realmente as bebe.
A Budvar, concorrente da Urquell, da cidade de Budweis, é uma das poucas empresas que resistiu à pressão pela privatização após a queda do comunismo e continua até hoje sob propriedade estatal.
Cervejarias em alerta
No país, qualquer assunto relacionado à cerveja atrai a atenção. Notícias sobre preços, vendas e exportação da bebida são acompanhadas com grande interesse. Por causa disso, nos últimos dias, a informação, divulgada pela Associação Tcheca de Cervejarias e Malteiras, de que o consumo nacional atingiu, em 2025, o mínimo histórico de 121 litros per capta ofuscaram as reportagens sobre o aumento nos preços dos combustíveis devido à guerra no Oriente Médio.
"Cada tcheco bebeu oito cervejas a menos no ano passado do que em 2024", constatou a emissora pública Cesky Rozhlas. A notícia foi destaque em quase todos os veículos de comunicação do país no final de abril.
"Nos últimos anos, os tchecos têm dado mais importância ao consumo moderado e adotado com mais frequência um estilo de vida saudável", explica Tomas Slunecko, diretor-geral da Associação Tcheca de Cervejarias e Malteiras. "E quando saem para tomar uma cerveja, estão mais interessados na variedade da oferta e, acima de tudo, na qualidade do que na quantidade. Isso também é comprovado pelo interesse crescente, a longo prazo, por cervejas sem álcool", acrescenta.
Segundo a associação, os tchecos também estão consumindo cada vez mais cerveja fora de bares e restaurantes. No ano passado, cerca de uma em cada quatro cervejas vendidas no país foi consumida nesses estabelecimentos comerciais.
A Associação Tcheca de Cervejarias e Malteiras solicitou ao governo que reduzisse o Imposto sobre o Valor Agregado (IVA) sobre a cerveja de barril, contribuindo assim para estimular o consumo nesses estabelecimentos. Lá, o preço de meio litro do chopp subiu nos últimos anos de 40 para entre 50 e 60 coroas, ou seja, de cerca de R$ 11,60 para R$ 14,50.
Além disso, também em países como a Alemanha, para onde se exporta cerveja tcheca, o consumo diminuiu significativamente. No total, a produção de cerveja na República Tcheca caiu 4,3% no ano passado, para 1,9 milhões de litros.
Parte da identidade nacional
Enquanto a geração mais antiga encara as notícias sobre a queda no consumo como algo negativo, ou seja, algo que atesta o declínio da tradição na sociedade tcheca, especialistas em dependência química e médicos veem a tendência com bons olhos.
"Para alguns tchecos, ainda existe o costume de tratar a cerveja não como uma bebida alcoólica, mas como parte da identidade nacional", explica Tom Philipp, ex-vice-ministro da Saúde e deputado do Partido Popular Tchecoslovaco, à DW. Ele considera positivo o fato de que, há 20 anos, o consumo ainda era de quase 160 litros por pessoa e hoje é de apenas 121.
"Estamos gradualmente deixando de lado o hábito de beber cerveja seguindo o lema 'o importante é beber muito' e adotando a ideia de que é normal beber menos ou nem beber nada – e isso é uma boa notícia por motivos de saúde e segurança", acrescenta.
A geração mais jovem, em geral, bebe menos álcool do que os mais velhos – mas o consumo continua alto. Além disso, o risco do abuso de álcool também persiste. "É muito preocupante que o álcool sirva, entre os jovens, como substituto para a falta de serviços de aconselhamento e assistência", afirma Katerina Duspivova, analista sênior do renomado Instituto Tcheco de Pesquisa Empírica.
De acordo com a pesquisa mais recente do Estudo Europeu sobre Álcool e Outras Drogas nas Escolas, de 2024, 14% dos jovens de 16 anos na República Tcheca bebiam para esquecer os problemas. Já 11% afirmaram que recorrem ao álcool quando se sentem tristes.
Menos álcool, mas novos riscos
Para os jovens tchecos, o álcool já não é considerado tão legal quanto era antes. No entanto, há novos riscos. "As mudanças no comportamento dos jovens também são confirmadas pelo Observatório Nacional de Drogas e Dependência. Segundo dados da instituição, observa-se uma queda no consumo de álcool entre as gerações mais jovens; em contrapartida, elas consomem com mais frequência novas substâncias não regulamentadas e fazem uso excessivo de redes sociais e jogos online", alerta a especialista Duspivova.
"Os jovens tchecos passam mais tempo no mundo virtual, mas continuam enfrentando os problemas do mundo real. E, nesse quesito, temos muito a recuperar. Isso também é confirmado pelos dados sobre o bem-estar psicológico de cada geração", acrescenta ela.