Familiares das vítimas duvidam do arrependimento de Beate Zschäpe, única sobrevivente de um grupo neonazista e condenada à prisão perpétua por assassinatos de pessoas com origem estrangeira.
Beate Zschäpe foi condenada em 2018 por um tribunal de Munique e terá uma revisão de pena em 2026Foto: Koehler/Eibner-Pressefoto/picture alliance
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Em 2018, a alemã Beate Zschäpe foi condenada pelo Tribunal Regional Superior de Munique à prisão perpétua por sua participação na organização terrorista de extrema direita Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU, na sigla em alemão), responsável pela morte de dez pessoas, com a corte determinando um grau de culpa particularmente severo.
Agora, mesmo pouco tendo colaborado durante o julgamento para esclarecer a série de assassinatos, Zschäpe foi aceita no programa Exit de reabilitação criminal para quem deseja deixar grupos extremistas e que oferece aconselhamento e assistência para a reintegração à sociedade.
"Ouvi a notícia com uma mistura de descrença e choque", disse Michalina Boulgarides à DW. Ela é filha de Theodoros Boulgarides, que foi assassinado pela NSU em Munique em 2005. Ele é um dos nove homens com raízes estrangeiras que foram mortos pelo grupo neonazista entre 2000 e 2007. A décima vítima é uma policial.
A ombudswoman do governo alemão para as vítimas da NSU, Barbara John, suspeita que Zschäpe quer participar do programa apenas para aumentar as chances de sair da prisão.
Fotos de procura-se dos três membros da NSU, Beate Zschäpe, Uwe Böhnhardt e Uwe MundlosFoto: picture alliance / dpa
A NSU cometeu assassinatos, atentados a bomba e assaltos a bancos em vários estados alemães entre 2000 e 2007. Todos os mortos pelo grupo, exceto a policial, tinham raízes estrangeiras. Zschäpe é a única sobrevivente do grupo, que incluía ainda os seus cúmplices Uwe Mundlos e Uwe Böhnhardt.
Inversão entre agressores e vítimas
Para Michalina Boulgarides, que soube da notícia pela mídia, o acordo feito por Zschäpe é um tapa na cara de todos os familiares das vítimas.
Juntamente com outros familiares de vítimas, ela lançou uma petição na plataforma online Campact e escreveu uma carta ao governo alemão. Eles reivindicam a remoção imediata de Zschäpe do programa de reabilitação, bem como apoio jurídico e financeiro para os afetados por meio de pensões permanentes e adequadas.
"Passamos por muita coisa nos últimos 20 anos, e é sempre a mesma coisa. O terrível é que, mais uma vez, percebemos que o aparato governamental não aprende nada, o que vale também para a maneira como ele lida com os afetados", diz Michalina Boulgarides. "Eu jamais conheci a proteção às vítimas."
Terrorismo neonazista no banco dos réus
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Durante anos, as investigações policiais se concentraram quase exclusivamente nas famílias das vítimas assassinadas. Tanto os mortos como familiares deles eram suspeitos de terem ligações com a máfia ou o tráfico de drogas. A hipótese de assassinatos com motivações extremistas de direita praticamente não foi investigada.
Agora, a inclusão de Zschäpe num programa de reabilitação é mais um sinal da inversão de tratamento entre agressores e vítimas: a terrorista assassina condenada, diz Michalina Boulgarides, está sendo apoiada em sua reintegração, enquanto as vítimas dela são deixadas para trás.
"Se ela tivesse falado durante o julgamento ou durante o período em que esteve presa, talvez até se desculpado, os afetados estariam reagindo de outra maneira. Mas ela diz que está se afastando da cena de extrema direita, embora tenha comprovadamente mantido contato com ela durante seu tempo na prisão. Isso não faz sentido para nós e não é crível", diz.
Um porta-voz do programa de reabilitação disse ao jornal Frankfurter Rundschau que, como regra geral, não são feitos comentários sobre os participantes, mas ele ressalvou que a admissão exige uma reflexão séria, por parte do participante, sobre os crimes cometidos e suas motivações.
Em novembro de 2026, após 15 anos de prisão (incluindo o tempo na prisão preventiva), o Tribunal Regional Superior de Munique decidirá sobre a sentença final para Zschäpe, que atualmente cumpre pena na penitenciária de Chemnitz.
Michaelina Boulgarides suspeita que Zschäpe esteja participando do programa de olho numa redução da sua pena, mas sem real arrependimento dos crimes cometidos. "Ela está fazendo isso para encurtar sua pena, não consigo ver de outra forma. Se alguém está realmente arrependido e diz que sente remorso, as coisas são diferentes. Acredito nesses programas de saída e acho bom que eles existam."
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Arrependimento é essencial
Existem muitos programas de reabilitação na Alemanha, tanto estatais quanto da sociedade civil. O Exit, criado em 2000, foi o primeiro e, por muitos anos, o único da sociedade civil.
Desde 2018, o Centro de Competência Contra o Extremismo (Konex), do Departamento Estadual de Investigações Criminais do estado de Baden-Württemberg, oferece programas de reabilitação voltados para o extremismo de direita, o extremismo de esquerda, o terrorismo islamista, o extremismo contra estrangeiros e recentemente também um para os chamados cidadãos do Reich, que não reconhecem a existência da República Federal da Alemanha.
"Para uma saída bem-sucedida, a vontade e a disposição de sair são essenciais – ou seja, a motivação de realmente querer sair. E isso depende do quanto uma pessoa continua firme, radicalizada e inserida na cena extremista", diz o chefe de aconselhamento de saída do Konex, Conrad Klosinski, à DW. "Então temos que avaliar se a motivação é genuína ou se a intenção é apenas obter uma redução da pena."
Em sete anos, o Konex lidou com mais de mil casos, desde meras consultas telefônicas até casos que se arrastaram por vários anos. Embora o extremismo de direita esteja em leve declínio, a proporção de jovens envolvidos aumentou significativamente. A radicalização está ocorrendo principalmente online, em grupos de chat e em redes sociais como o TikTok, com códigos e símbolos em constante mudança.
"O mais importante é construir uma confiança mútua para podermos avaliar o que a pessoa quer de nós, se o arrependimento é sério e o que podemos oferecer a ela", diz Klosinski. "Nosso objetivo mínimo é que a pessoa não volte a cometer crimes com motivação política. E, claro, ainda melhor seria, e é isso que buscamos, que ela se distancie verdadeiramente e de forma permanente, se desradicalize, se reoriente ideologicamente e, idealmente, se mantenha firme nos princípios da ordem fundamental liberal democrática."
O caso NSU
Após mais de cinco anos de processo, saem as sentenças pelas mortes de nove imigrantes e uma policial na Alemanha, num caso envolvendo extremismo de direita e críticas a instâncias estatais.
Foto: dapd
Beate Zschäpe, o rosto da NSU
Entre 2000 e 2006, nove homens de origem estrangeira foram mortos com a mesma pistola na Alemanha. A polícia tateava no escuro, e a mídia falava de "assassinatos do kebab". Em 4 de novembro de 2011, uma casa explodiu em Zwickau, no leste do país. Entre os destroços foram encontrados a arma do crime e outros objetos incriminadores. Quatro dias mais tarde, Beate Zschäpe se entregou à polícia.
Foto: dapd
O (presumível) trio da NSU
Em 1998, Zschäpe se unira aos amigos ultradireitistas Uwe Böhnhardt e Uwe Mundlos na célula terrorista Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU). O trio viveu incógnito em diversos locais por quase 14 anos, por último em Zwickau, no estado da Saxônia. Segundo os investigadores, eles teriam cruzado a Alemanha cometendo assassinatos e atentados a bomba, financiando-se através de assaltos a bancos.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Burgi
As vítimas
Ao que se sabe, a NSU matou ao menos nove homens e uma mulher. A primeira vítima, Enver Şimşek, sucumbiu em setembro de 2000 a ferimentos graves. As demais vítimas foram (a partir do alto, esq.) Abdurrahim Özudogru, Süleyman Taşköprü, Habil Kılıç, a policial Michèle Kiesewetter, Mehmet Turgut, Ismail Yasar, Theodorus Boulgarides, Mehmet Kubaşık e Halit Yozgat.
Foto: picture-alliance/dpa
Atentados a bomba em Colônia
Na rua Keupstrasse, em Colônia, habitada majoritariamente por turcos, uma bomba cheia de pregos explodiu em 9 de junho de 2004. Mais de 20 pessoas ficaram feridas, em parte gravemente. Antes, em 19 de janeiro de 2001, uma outra fora detonada na Probsteigasse. Uma jovem de 19 anos de origem iraniana sofreu queimaduras, cortes, fratura do crânio e perfuração do tímpano.
Foto: picture-alliance/dpa
Fim de uma fuga
Em 4 de novembro de 2011, um assalto a banco fracassou em Eisenach, na Turíngia. Os criminosos conseguiram inicialmente escapar, mas foram perseguidos pela polícia. Pouco mais tarde, os cadáveres de dois homens foram encontrados num trailer fumegante. Os indícios eram de suicídio. Ambos foram identificados como Uwe Böhnhardt e Uwe Mundlos, supostos integrantes da célula terrorista NSU.
Foto: picture-alliance/dpa
Último esconderijo
Poucas horas após a morte dos supostos assassinos da NSU, uma casa residencial foi pelos ares em Zwickau. Com a explosão, Beate Zschäpe aparentemente tentou eliminar as pistas na moradia que dividia com seus amigos Böhnhardt e Mundlos. Entre as ruínas, os policiais encontraram, entre outros, a arma do tipo Ceska utilizada na série de assassinatos da NSU e um vídeo de reivindicação.
Foto: picture-alliance/dpa
Reivindicação cruel
Num macabro vídeo, utilizando a apreciada figura de desenhos animados Pantera Cor-de-Rosa, a NSU reivindicou os assassinatos de nove turcos e uma policial. No entanto, uma das vítimas, Theodorus Boularides, tinha origem grega.
Foto: picture-alliance/dpa/Der Spiegel
O início do processo
Em 6 de maio de 2013, começou o processo da NSU no Tribunal Superior Regional de Munique. A única sobrevivente do trio terrorista, Beate Zschäpe, apresentou-se de terno escuro, aparentando autoconfiança. O procurador-geral da República a acusou, entre outros crimes, de "ter matado, em dez casos, um ser humano de forma traiçoeira e por motivação torpe".
Foto: Reuters/Michael Dalder
Cúmplices da NSU?
Além de Zschäpe, quatro homens foram acusados no processo da NSU como presumíveis acessórios dos crimes. Apenas Ralf Wohlleben (abaixo, dir.), ex-membro do partido de extrema direita NPD, pode ter seu nome completo citado na imprensa. Os demais, André E., Carsten S. e Holger G. estão protegidos pelo direito de personalidade.
Zschäpe quebra o silêncio
Em 9 de dezembro de 2015, após dois anos e meio de silêncio, Beate Zschäpe se pronunciou, fazendo ler uma declaração em que inculpa Böhnhardt e Mundlos pela série de assassinatos. Em meados do ano, ela se desentendera com seus três advogados indicados, passando a ser representada adicionalmente por Hermann Borchert e Mathias Grasel.
Foto: picture-alliance/dpa/P. Kneffel
Escândalo do informante
Desde o início do processo, era ambíguo o papel do Departamento de Defesa da Constituição, responsável pela segurança interna da Alemanha, nas atividades da NSU. O extremista de direita Tino Brandt (foto), informante do órgão, relatou em juízo como, nos anos 90, criara o grupo Defesa da Pátria da Turíngia (THS). A partir dele, o trio liderado por Zschäpe se radicalizou, criando a NSU.
Foto: picture-alliance/dpa/Martin Schutt
Relações mal explicadas
Quando Halit Yozgat foi baleado num internet-café de Kassel, em 6 de abril de 2006, o informante Andreas T. estava no local. Apesar disso, o funcionário da Defesa da Constituição afirmou nada saber sobre o atentado. No processo da NSU, o pai da vítima, Ismael Yozgat, relatou de forma comovedora como segurara nos braços o filho agonizante. No tribunal, levou consigo uma foto de infância de Halit.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Gebert
Protestos contra falta de clareza
Já houve uma série de manifestações contra o envolvimento de órgãos estatais alemães no caso da NSU. A organização Keupstrasse Está Por Toda Parte é uma das participantes dos protestos. Ela leva o nome da cidade de Colônia, onde a célula terrorista explodiu uma bomba cheia de pregos.
Foto: DW/M. Fürstenau
Parlamento interfere
O Parlamento federal alemão tentou trazer luz às intrigas no caso da NSU. Em agosto de 2013, o presidente da primeira comissão de inquérito, Sebastian Edathy (dir.), entregou ao líder parlamentar Norbert Lammert seu relatório final de mais de mil páginas. A conclusão foi avassaladora: "fracasso estatal". Mais tarde haveria outras CPIs em nível federal e estadual.
Foto: picture-alliance/dpa
Promessas quebradas
Em 23 de novembro de 2012, foi realizado na Konzerthaus de Berlim um evento em memória das vítimas da NSU. A chefe de governo Angela Merkel (esq.) prometeu a Semiya Şimşek e outros familiares o esclarecimento total. Mas eles estavam decepcionados diante de dossiês da Defesa da Constituição eliminados ou mantidos em caráter confidencial. Sua suspeita era de que o Estado sabia mais do que admitia.
Foto: Bundesregierung/Kugler
Procuradoria Geral exige pena máxima
Em meados de 2017, o procurador-geral Herbert Diemer e colegas apresentaram suas considerações finais. Eles exigiram para Beate Zschäpe a pena máxima, de prisão perpétua, devido à gravidade extrema de seus crimes. Para Ralf Wohlleben e André E., a acusação pediu 12 anos de cárcere, assim como cinco para Holger G. e três para Carsten S..
Foto: picture-alliance/dpa/P. Kneffel
Exigência surpreendente
Em abril de 2018, os defensores se pronunciaram. Hermann Borchert e Mathias Grasel, representando Zschäpe apenas desde 2015, reivindicaram para ela um máximo de dez anos de prisão. Entretanto, seus antigos advogados, Wolfgang Stahl, Wolfgang Heer e Anja Sturm (da dir. para a esq.) surpreenderam ao pedir a libertação imediata de Zschäpe da prisão preventiva.
Foto: Reuters/M. Rehle
Juiz respeitado
Manfred Götzl, de 64 anos, é o juiz-presidente no processo da NSU, no Tribunal Superior Regional de Munique, encarregado de pronunciar as sentenças contra Beate Zschäpe e os demais réus. Os advogados de alguns coautores do processo criticaram Götzl, desejando que ele conduzisse a ação com maior rigor. No geral, contudo, ele goza de grande respeito.
Foto: picture-alliance/dpa/T. Hase
Prisão perpétua para a ré principal
Em 11 de junho de 2018, Beate Zschäpe (esq.), de 43 anos, foi condenada à prisão perpétua pelo Tribunal Superior Regional de Munique. Como os crimes são de extrema gravidade, ela não poderá deixar a prisão depois de cumprir 15 anos de pena. A defesa anunciou que vai recorrer da decisão à instância superior, a Corte Federal de Justiça. Os demais réus receberam penas entre dez e dois anos e meio.