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Theresienstadt e Auschwitz: música sob o signo do Holocausto

Augusto Valente25 de janeiro de 2005

A música não era sagrada para o regime nazista. Mesmo nos campos de extermínio ela era meio de diversão, elemento tranqüilizador e álibi para o regime. Mas também a possibilidade de fuga interna e forma de protesto.

Terezin (Theresienstadt) em 1941Foto: dpa

O campo de concentração Terezin (Theresienstadt) ficava a 60 quilômetros da capital da então Tchecoslováquia, Praga. Para dezenas de milhares de prisioneiros tratava-se de uma estação de passagem para as câmaras de gás de Auschwitz. Para o regime nazista, era um assim chamado “campo-modelo”.

De início, toda e qualquer atividade artística era punida com a morte. O que não impediu muitos condenados de inventar todo tipo de artifício para não se separar de seus instrumentos. Um violoncelo – grande demais para passar despercebido – era, por exemplo, desmontado, e, uma vez dentro do campo, o músico voltava a colar suas partes. Com esses instrumentos contrabandeados, realizavam-se concertos secretos nos porões ou sob os telhados de Terezin.

Alta qualidade musical

Logo, os mentores do Holocusto perceberam como explorar até mesmo a energia artística “ilegal” dos sofridos detentos. Exibir a rica atividade musical em Terezin era uma forma de provar à opinião pública que as notícias sobre os horrores dos campos de concentração não passavam de propaganda dos inimigos do nacional-socialismo, legitimando as atividades do regime. Só para quem quisesse ser enganado, é claro.

O fato de cada vez mais atores, diretores, cientistas e músicos serem confinados aos guetos garantia produção musical de alta qualidade em Terezin. Entre os detentos contavam Peter Deutsch (ex-regente da Orquestra Real de Copenhague), o libretista Leo Strauss e compositores como Pavel Haas, Viktor Ullmann e Hans Krása. Uma ópera infantil deste último, Brundibar, chegou a ser utilizada pelos nazistas como instrumento de propaganda.

Música de um judeu para a propaganda nazista

Anna Flachová, sobrevivente do “lar de meninas” L410 de Terezin, relembra como, durante a realização de um filme de propaganda, ela e suas companheiras receberam a incumbência de cantar a obra de Krása, “para mostrar à Cruz Vermelha e a todo o mundo como se vivia bem em Theresienstadt. Mas era tudo mentira”. O cínico roteiro do filme visava mostrar Hitler presenteando aos judeus uma nova cidade.

Os ensaios da ópera infantil composta em 1938 realizaram-se num porão, acompanhados por piano, ou apenas por um acordeão. Dependendo de se os músicos podiam permanecer ou se eram subitamente transportados para Auschwitz, havia por vezes uma pequena orquestra.

Apesar de tudo, Anna Flachová adorava Brundibar, não só pela alegria de cantar, como pelo reencontro, ainda que por alguns momentos, com a infância roubada: “Sentíamos falta de ser ainda crianças”. Brundibar foi executada 55 vezes em Terezin, porém a maioria dos participantes não sobreviveu aos anos da Segunda Guerra.

Silêncio em Terezin

No campo tchecoslovaco, não apenas se executava música, como também se compunha intensamente. Viktor Ullmann (Der Kaiser von Atlantis) lá produziu muitas de suas obras, e o jovem e promissor pianista Gideon Klein completou seu Trio de cordas apenas nove dias antes de ser deportado para Auschwitz.

“Carrega-se o pesado destino como se não fosse tão pesado, e se fala do futuro melhor como se já fosse amanhã”: esta é uma citação de Als ob (Como se), uma das numerosas canções com textos de Leo Strauss. Os versos contêm uma crítica velada a seus companheiros de cativeiro, que mesmo em Terezin cultivavam a esperança e se alimentavam de ilusões.

Entretanto, em 16 de outubro de 1944 quase toda música emudeceu em Terezin. O trem de transporte ER 949 levou Haas, Ullmann e Klein, entre outros, para Auschwitz. Os mais idosos, como Hans Krása, foram diretamente para a câmara de gás, após o desembarque.

Pausa musical em Auschwitz

Prisioneiras de AuschwitzFoto: AP

O próprio campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, possuía uma orquestra feminina, com cerca de 50 instrumentistas, entre 17 e 20 e poucos anos de idade, sob a regência de Alma Rosé, além de outras dez, que copiavam as peças a mão.

Para que música na sala de espera da câmara de gás? Claro, para os de fora, a existência dessa orquestra era um álibi, a falsa prova de que os internos viviam em condições humanas. Mas também não faltavam verdadeiros melômanos entre os oficiais da SS, entre eles o abominável Dr. Josef Mengele, apelidado o Anjo da Morte, extremamente musical e que, mesmo durante o exílio na América do Sul, não deixava de freqüentar concertos. Outros, como Adolf Eichmann, exigiam entretenimento durante a inspeção dos campos.

As musicistas eram confrontadas diariamente com uma amarga tarefa: cronicamente subnutridas, executar música de forma convincente, para os assassinos de suas famílias e amigos, e possivelmente seus próprios futuros algozes. Um precário prolongamento da vida, que podia acabar numa nota mal tocada.

Regente-heroína

Apesar dos relativos privilégios de que gozavam as instrumentistas, música era acima de tudo uma forma de trabalho forçado em Auschwitz, envolvendo um mínimo de 10 a 12 horas diárias de ensaios. Além disso, a qualquer hora um oficial podia resolver escutar sua melodia favorita, e neste caso as mulheres tinham que estar sempre a postos.

Outra cruel função da orquestra feminina era tranqüilizar os novatos, que acabavam de chegar ao campo após viagem massacrante no vagão de carga de um trem.

Nesse contexto de vida ou morte, a figura da regente Alma Rosé toma proporções de heroína. Com enorme habilidade psicológica, ela conseguiu durante anos manter o difícil equilíbrio entre o rigor necessário à disciplina da orquestra e o calor humano indispensável à sobrevivência mental de cada uma das mulheres sob a sua batuta. Até hoje, algumas das musicistas de Auschwitz afirmam dever a vida a essa mulher.

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