Troca de governo, atos da Geração Z: entenda a crise no Peru
17 de outubro de 2025
Enquanto protestos liderados por jovens contra corrupção e violência tomam as ruas do país, forças policiais reagem com brutalidade. Presidente interino recém-empossado anuncia declaração de estado de emergência.
Símbolo dos protesto da geração Z, bandeira do desenho japonês One Peace também é vista nas manifestações no Peru Foto: Hugo Curotto/AFP/Getty Images
Anúncio
A crise política no Peru não tem dado sinais de que irá arrefecer, mesmo após o impeachment relâmpago da ex-presidente Dina Boluarte, em 10 de outubro. Protestos massivos nas principais cidades do país contra o governo e o Congresso, liderados por jovens da Geração Z– jovens entre 18 e 30 anos que se organizam por plataformas digitais –, acontecem há um mês, sob violenta repressão das forças policiais.
O pior momento dos confontos aconteceu na noite de quarta-feira, quando um policial à paisana atirou contra manifestantes no centro de Lima, matando o rapper Eduardo Ruiz Sáenz, de 32 anos. No mesmo dia, mais de 100 pessoas ficaram feridas, incluindo policiais.
Após o agravamento das tensões, o recém-empossado presidente José Jerí declarou nesta quinta-feira (17/10) que irá decretar estado de emergência na capital para enfrentar a criminalidade. Com a medida, que pode incluir toque de recolher, o governo fica autorizado a enviar militares às ruas para patrulhar e restringir direitos, como a liberdade de reunião e de trânsito.
"Vamos anunciar a decisão do governo de decretar estado de emergência, pelo menos na região metropolitana de Lima, mas, ao contrário de outras ocasiões, esta não pode ser simplesmente uma declaração etérea, subjetiva e que não serve ao cidadão comum. Deve ser acompanhada de um pacote de medidas concretas e eficazes", disse Álvarez.
Paralisações
Além das mobilizações contra o crime organizado e a classe política peruana, várias categorias têm anunciado paralisações, como alguns setores do transporte público.
Para fazer frente à crise, o presidente espera aprovar medidas de urgência sem passar pela aprovação dos parlamentares.
"Queremos solicitar poderes legislativos para legislar principalmente em questões de segurança cidadã (...) que é o principal problema", disse o presidente a jornalistas.
"Entre elas está a questão das prisões", de onde as gangues extorquem, comentou Jerí, sem detalhar o tipo de intervenção que espera adotar.
Presidente interino, José Jerí, diz que não vai renunciar e determinou estado de emergênciaFoto: Renato Pajuelo/AFP/Getty Images
Instabilidade política
O cenário de crise política não é recente no Peru. O país passou por sete governos na última década, incluindo o atual.
A antecessora, Dina Boluarte, foi a primeira mulher a tornar-se presidente do país, em 2022, após um autogolpe de Estado fracassado de seu colega de chapa, o presidente Pedro Castillo. Além de destituído do poder, ele também foi preso.
A ex-presidente interina atingiu os piores índices de popularidade de um líder peruano – sua aprovação caiu de cerca de 21% no início do mandato para apenas 2% a 4%. A crescente frustração com seu desempenho em conter o crime no país, além de escândalos de corrupção, abriu caminho para que o Congresso decidisse por sua saída do cargo, alegando "incapacidade moral permanente".
Entre as acusações mais graves apresentadas contra a ex-mandatária está a morte de 49 pessoas durante a repressão dos protestos que eclodiram no país entre dezembro de 2022 e março de 2023, depois que ela substituiu Castillo na presidência do país.
Ela é investigada também por supostamente receber presentes luxuosos como relógios Rolex e joias não declaradas, não informar que estaria impedida fisicamente de exercer o cargo quando se submeteu a uma série de cirurgias estéticas e falsificar a assinatura em vários decretos durante o tempo em que esteve convalescente.
O presidente do parlamento peruano, José Jerí, de 38 anos, assumiu interinamente a Presidência, apesar de ter sido investigado por estupro. A denúncia, aberta em janeiro de 2025, foi arquivada em agosto pelo Ministério Público por falta de provas. Ele nega as acusações.
Mas o descontentamento popular que toma as ruas do Peru ultrapassa a conjuntura atual, e os protestos apontam para a classe política com gritos de "saiam todos".
"Não vou renunciar, vou continuar com a responsabilidade", respondeu Jerí à imprensa sobre sua permanência no cargo.
O chefe de Estado lamentou a morte do manifestante em Lima, mas insistiu que o protesto foi tomado por um pequeno grupo que quer, segundo ele, impor "o caos".
"Em um Estado de direito, as garantias de todos os manifestantes e das forças da ordem são protegidas, mas esse pequeno grupo buscava gerar o caos", disse.
Anúncio
Início dos protestos
No último mês, quase 200 pessoas ficaram feridas durante os protestos em Lima, incluindo policiais, manifestantes e jornalistas.
O primeiro protesto em Lima ocorreu em 20 de setembro, quando algumas centenas de pessoas participaram de uma manifestação convocado por jovens da Geração Z. Segundo a imprensa, cerca de 500 manifestantes se reuniram no centro da capital peruana e seguiram em direção às sedes do Executivo e do Legislativo. Houve confronto com a polícia.
Os protestos ocorrem em um momento de insatisfação com a classe política. De acordo com uma pesquisa do instituto Datum, publicada em setembro pelo jornal El Comercio, 79% dos peruanos sentiem vergonha do governo, e 85% dizem o mesmo do Congresso.
Violência no centro da crise
O Peru vive um aumento dramático de suas estatísticas de violência. Grupos criminosos envolvidos em assassinatos por encomenda e tráfico de drogas passaram a praticar extorsão, explorando o vácuo de poder político no país.
Em 2024, o número de homicídios aumentou cerca de 34% em comparação a 2023, com mais de 2 mil casos. Apenas da região metropolitana de Lima, foram registrados 755 homicídios no ano passado.
Os casos de extorsão dispararam de algumas centenas em todo o ano de 2017 para mais de 2 mil por mês em 2025, de acordo com dados da polícia. Os alvos vão desde desde empresas de transporte até barbeiros, escolas particulares e lojas de conveniência. Nos últimos dois anos, dezenas de motoristas de ônibus foram mortos no trabalho, vítimas dessas quadrilhas.
O tráfico de pessoas também mostra índices alarmantes: entre dezembro de 2022 e julho de 2025, período de Boluarte no poder, foram identificadas aproximadamente 1.465 vítimas, aponta o Observatório Nacional de Segurança Cidadã.
sf/md (AFP, EFE, ots)
Ex-presidentes latino-americanos que já foram presos
Mais de uma dúzia de líderes de países da região, como Brasil, Argentina, Honduras, Peru, Bolívia e Panamá foram detidos nos últimos anos.
Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency/REUTERS
Luis Arce (Bolívia)
O ex-presidente da Bolívia Luis Arce foi preso pouco mais de um mês de deixar o cargo. A prisão ocorreu no âmbito de uma investigação contra Arce, que governou a Bolívia entre 2020 e 2025, por suposto desvio de recursos do Fundo Indígena, destinado ao desenvolvimento de comunidades indígenas e camponesas.
Condenado por liderar uma trama golpista após a eleição de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022) teve decretada prisão domiciliar em agosto de 2025 após ser acusado de violar medidas cautelares. Em novembro de 2025, teve prisão preventiva decretada e no mesmo mês começou a cumprir pena
Foto: Evaristo Sa/AFP
Michel Temer (Brasil)
Presidente entre maio de 2016 até o fim de 2018, Michel Temer foi preso em março de 2019, poucos meses depois de deixar o cargo, no âmbito de um desdobramento da Lava Jato. Foi solto quatro dias depois, mas voltou a ser preso por mais seis dias em maio de 2019. O caso foi posteriormente anulado pela Justiça.
Foto: Imago Images/Agencia EFE/F. Bizerra Jr
Fernando Collor (Brasil)
Presidente entre 1990 e 1992, Collor foi condenado por corrupção pelo Supremo em maio de 2023, em um processo que teve origem na Operação Lava Jato. Em abril de 2025, foi levado a um presídio em Maceió, no estado de Alagoas, para cumprir pena de 8 anos e 10 meses de prisão. Seis dias depois, passou a cumprir pena em casa.
Foto: EVARISTO SA/AFP
Lula (Brasil)
Lula, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, passou 580 dias na prisão entre abril de 2018 e novembro de 2019, após ser condenado por corrupção. Em março de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as duas sentenças por irregularidades processuais cometidas pelo Ministério Público e pelo juiz do caso. Assim, conseguiu disputar a eleição de 2022, na qual derrotou Jair Bolsonaro.
Foto: Reuters/R. Buhrer
Cristina Kirchner (Argentina)
Ex-presidente da Argentina (2007-2015) e ex-vice (2019-2023), Cristina Kirchner teve em junho de 2025 uma pena de seis anos de prisão por corrupção confirmada pela Suprema Corte. No mesmo mês, começou a cumprir prisão domiciliar - a a lei argentina que prevê essa possibilidade para pessoas com mais de 70 anos.
O presidente argentino Carlos Menem (1989-1999) enfrentou diversos processos. Em seu primeiro julgamento, em 2008, foi acusado de tráfico de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Passou seis meses em prisão domiciliar preventiva em 2001, e foi solto depois que a Justiça anulou as acusações. A partir de 2005, teve imunidade como senador, cargo que ocupou até sua morte em 2021
Foto: Ricardo Ceppi/Getty Images
Jeanine Áñez (Bolívia)
Jeanine Áñez assumiu a presidência interina da Bolívia em 12 de novembro de 2019 como segunda vice-presidente do Senado, dois dias após a renúncia de Evo Morales. Ela foi detida em 13 de março de 2021, e numa decisão polêmica, um tribunal a condenou a 10 anos de prisão pelos crimes de violação de deveres e resoluções contrárias à Constituição. Em agosto de 2025, ele continuava presa
Foto: Juan Karita/AP Photo/picture alliance
Ricardo Martinelli (Panamá)
Ricardo Martinelli, que governou o Panamá de 2009 a 2014, foi preso em junho de 2017 na Flórida. No ano seguinte, foi extraditado para ser julgado em seu país num caso sobre escutas ilegais, do qual foi posteriormente absolvido. Em 2019, foi solto. Em 2024, no entanto, voltou a ser condenado em outro caso e no mesmo ano se abrigou numa embaixada. Em agosto de 2025, vivia como asilado na Colômbia.
Foto: picture-alliance/AP Images/A. Franco
Juan Orlando Hernández (Honduras)
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) foi extraditado para os Estados Unidos em abril de 2022, onde foi acusado de conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e armas pesadas e conspiração para possuir tais armas. Em 2024, foi condenado a 45 anos de prisão. Em agosto de 2025, ele seguia detido em uma penitenciária dos EUA
Foto: Andy Buchanan/AFP
Antonio Saca (El Salvador)
Presidente de El Salvador entre 200e e 2009, Antonio "Tony" Saca foi condenado a 10 anos de prisão em 2018 após se declarar culpado por desviar mais de US$ 300 milhões em fundos públicos durante seu mandato. Em agosto de 2025, ele estava cumprindo pena na prisão La Esperanza, em El Salvador.
Foto: Rodrigo Sura/Agencia EFE/IMAGO
Otto Pérez Molina (Guatemala)
General aposentado que governou a Guatemala de 2012 a 2015, Otto Pérez Molina foi preso um dia depois de renunciar ao cargo. Ele foi condenado a 16 anos de prisão por liderar uma rede milionária de fraudes alfandegárias. Ele deixou a prisão em 2024 após pagar fiança.
Foto: Luis Vargas/AA/picture alliance
Álvaro Uribe (Colômbia)
Acusado de fraude processual e suborno, o ex-líder colombiano Álvaro Uribe (2002-2010) ficou 67 dias na prisão em 2020 "devido a possíveis riscos de obstrução da Justiça". Em julho de 2025, foi condenado a 12 anos de detenção, a serem cumpridos em prisão domiciliar.
Foto: Long Visual Press/LongVisual/ZUMA Press/picture alliance
Alberto Fujimori (Peru)
Alberto Fuijimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, deu um autogolpe em 1992. Seu governo foi marcado por vários casos de corrupção. Em 2005, foi preso no Chile e depois extraditadi. Posteriormente, foi condenado a 25 anos de prisão por homicídio qualificado, usurpação de funções, corrupção e espionagem, além de desvio de fundos. Em 2023, foi solto. Fujimori morreu no ano seguinte.
Foto: Martin Mejia/AP/picture alliance
Pedro Castillo (Peru)
Pedro Castillo, destituído da presidência do Peru após ter ordenado a dissolução do Parlamento em dezembro de 2022, foi detido e levado ao presídio de Barbadillo. Às acusações de corrupção que já enfrentava, o Ministério Público acrescentou a do alegado crime de rebelião "por violação da ordem constitucional". Em agosto de 2025, o ex-presidente seguia detido.
Foto: Renato Pajuelo/AP/picture alliance
Pedro Pablo Kuczynski (Peru)
Presidente do Peru de 2016 até sua renúncia em 2018 na esteira de um processo de impeachment, Pedro Pablo Kuczynski foi alvo de prisão preventiva em 2019 no âmbito do escândalo Odebrecht. Alegando problemas de saúde, passou a cumprir a medida em casa. Em agosto de 2025, ainda cumpria várias medidas cautelares, como proibição de deixar o país.
Foto: picture-alliance/AP Photo/M. Mejia
Ollanta Humala (Peru)
Ollanta Humala (2011-2016) completou seu mandato presidencial no Peru, mas, um ano depois, foi colocado em prisão preventiva. Ele e a esposa foram investigados pelo suposto recebimento ilegal de dinheiro da Odebrecht. Em abril de 2018, o Tribunal Constitucional do Peru revogou a prisão. Em 2021, se candidatou novamente à Presidência, mas recebeu apenas 1,5% dos votos. Em 2025, voltou a ser preso.
Foto: El Comercio/GDA/ZUMA Press/picture alliance
Alejandro Toledo (Peru)
Presidente do Peru entre 2001 e 2006, Alejandro Toledo foi condenado em outubro de 2024 a 20 anos e seis meses de prisão por corrupção. Detido nos EUA em 2023 e extraditado no mesmo ano, ele cumpria pena no Peru em agosto de 2025.
Foto: Guadalupe Pardo/AP/picture alliance
Martín Vizcarra (Peru)
Martín Vizcarra foi o sexto ex-presidente do Peru a se somar à lista de presos. Ele governou o Peru entre 2018 até 2020, quando foi afastado em meio a um processo de impeachment. Sua prisão preventiva em agosto de 2025 envolveu suspeita de risco de fuga em meio a um processo de crime de suborno.