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Trump e apagões forçam Cuba à mesa de negociações

20 de março de 2026

Casa Branca aumenta pressão sobre a ilha, que já enfrenta múltiplas crises. Apesar da fragilidade do regime em Havana, especialistas não creem na possibilidade de um colapso.

Rua escurecida em Havana com lixo amontoado e carros antigos
Cuba sofreu diversos apagões nos últimos anosFoto: Norlys Perez/REUTERS

Nos últimos dois anos, Cuba sofreu quatro apagões em todas as regiões do país. Desde fevereiro de 2024, dez apagões generalizados abalaram a economia e o ânimo da população. Enquanto aumenta a pressão do bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos, o governo cubano se viu forçado a iniciar negociações com Washington.

O presidente dos EUA, Donald Trump, reiterou, no início desta semana, suas ameaças de assumir o controle de Cuba e disse que poderia fazer "qualquer coisa" que quisesse com o país caribenho – o que aumentou as especulações de que os principais líderes cubanos poderiam enfrentar o mesmo destino do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro.

A prisão de Maduro na capital venezuelana, Caracas, em janeiro, não apenas mostrou a Cuba o que Trump estava disposto e era capaz de fazer, mas também privou o regime de um de seus aliados mais próximos e de um de seus mais importantes fornecedores de petróleo.

Relações espinhosas entre EUA e Cuba

Localizada a cerca de 150 quilômetros do estado da Flórida, no sul dos EUA, Cuba tem sido uma pedra no sapato dos Estados Unidos desde a revolução de 1959 liderada por Fidel Castro. O regime comunista se impôs de maneira consistente perante os EUA, que costumavam exercer influência significativa sobre a ilha e, durante a Guerra Fria, consideravam Cuba um ponto de entrada para outros Estados comunistas, como a União Soviética e a China, ou países hostis aos EUA, como a Venezuela.

O ex-presidente dos EUA Barack Obama buscou uma aproximação e tentou reavivar as relações com Havana. Mas esses esforços foram revertidos por Trump durante seu primeiro mandato (2017 a 2021), para o alívio de muitos exilados cubanos e seus descendentes, muitos dos quais desejam a queda do regime. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, é um dos cidadãos americanos de ascendência cubana mais proeminentes. A diáspora cubana representa um importante bloco eleitoral, particularmente no estado da Flórida, considerado um estado decisivo nas eleições.

Muitos exilados cubanos nos EUA esperam a queda do regime em Cuba para poder voltar ao paísFoto: Carl Juste/Miami Herald/ZUMA/picture alliance

Klemens Fischer, especialista em política externa da Universidade de Colônia, na Alemanha, afirmou à emissora alemã ZDF que a atual escalada da retórica de Trump em relação a Cuba provavelmente é motivada por questões de política interna.

"Pode ser uma tentativa de se desvencilhar, visto que as coisas não estão indo como ele gostaria no Irã", observou. "Ele precisa mostrar que é um presidente forte. Por outro lado, ele também precisa evitar se envolver em outra guerra."

Trump, no entanto, já havia intensificado a pressão sobre Cuba. Foi a seu pedido que a presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, interrompeu completamente, em janeiro, o envio de petróleo para Cuba – que já havia diminuído.

Os EUA também bloquearam as rotas marítimas para a ilha e ameaçaram com sanções os países que fornecem petróleo a Cuba. Segundo o governo cubano, o país não recebe nenhum carregamento de petróleo há três meses. A produção interna, que vem diminuindo há anos, cobriu menos de 30% da demanda em 2024. O aumento dos apagões está diretamente ligado a isso, já que a eletricidade de Cuba provém em grande parte de usinas termelétricas a petróleo.

Pior crise econômica em três décadas

A escassez de energia é apenas um – embora significativo – aspecto da atual crise econômica, afirmou à DW o economista cubano Elias Amor, que vive na Espanha. Ele disse que, além de um breve período de recuperação, a economia cubana encolheu em média 2,75% ao ano desde o início da pandemia de covid-19 em 2020, sendo que em 2025 essa retração aumentou para 5%. "A economia cubana está em seu pior estado desde o 'Período Especial'", observou.

O Período Especial é o termo dado pelo regime cubano à profunda recessão que atingiu o país após o colapso da União Soviética no início da década de 1990, quando os salários reais caíram 90% em quatro anos. O governo de Fidel Castro introduziu reformas temporárias, incluindo a abertura gradual do setor de turismo, o que resultou em uma recuperação parcial. Mas foi somente quando Hugo Chávez chegou ao poder na Venezuela e o país assumiu o papel de patrocinador de Cuba, substituindo a União Soviética, que a economia realmente começou a se recuperar de maneira substancial.

Amor especulou que foi a abertura gradual da economia cubana nas últimas décadas que impediu uma crise semelhante à do início dos anos 1990. No entanto, ele previu que as reformas limitadas que o irmão de Fidel, o ex-ditador Raúl Castro, e seu sucessor, Miguel Díaz-Canel, introduziram provavelmente não teriam um grande impacto.

"Nem mesmo o turismo será capaz de estancar esta crise, já que as forças motrizes da economia pararam completamente", disse ele.

Rubio: sistema cubano precisa "mudar drasticamente"

Aparentemente, foi a enorme pressão interna e externa de Cuba que forçou o regime à mesa de negociações. Na semana passada, o presidente cubano confirmou que as conversas aconteceriam, como Trump havia anunciado no início de março.

No início desta semana, o vice-primeiro-ministro Oscar Pérez-Oliva, sobrinho-neto dos irmãos Castro, afirmou que Cuba estava aberta a permitir o comércio com empresas americanas e a permitir que cubano-americanos investissem em empresas cubanas.

Secretário de Estado, Marco Rubio, é um dos descendentes cubanos mais proeminentes nos EUAFoto: Jonathan Ernst/AFP

Rubio, no entanto, disse que os esforços do regime não foram "suficientemente drásticos". Ele afirmou que o sistema político e governamental não poderia ser consertado e acrescentou que a economia não estava funcionando, acrescentando que "eles precisam mudar drasticamente".

Apesar da grave situação econômica, Maria José Espinosa, diretora do Centro para o Engajamento e Ativismo nas Américas (Ceda), com sede em Washington, duvida que o regime cubano esteja à beira do colapso.

"O aparato estatal – o partido comunista, as forças de segurança e o sistema militar-econômico – permanece relativamente coeso", afirmou.

Somente os Castro podem introduzir mudanças reais

No entanto, as rachaduras estão começando a aparecer. Para muitos, Díaz-Canel é considerado um membro do partido que perdeu influência e é efetivamente intercambiável. De acordo com Ted Henken, professor da City University of New York (Cuny), somente os militares – e os Castros – seriam realmente capazes de introduzir mudanças fundamentais no país.

"É a família Castro que controla e dirige as negociações com os Estados Unidos", disse o especialista à DW.

Além do vice-primeiro-ministro Pérez-Oliva, cuja estrela está em ascensão, também está se tornando cada vez mais importante o neto de Raúl Castro, Raúl Guillermo, conhecido como El Cangrejo ("O caranguejo").

"Tudo aponta para o fato de que eles representarão os interesses da família Castro e, de uma forma ou de outra, acabarão liderando o governo", afirrnou Henken. Ele disse ainda duvidar que a nova geração consiga promover reformas estruturais que levariam vários anos até que fossem implementadas.

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