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HistóriaAlemanha

Ultradireita explora "nazismo de esquerda" na Alemanha

28 de setembro de 2026

Líder da AfD, Alice Weidel, propaga tese considerada desonesta e sem sentido por acadêmicos. Historiadores destacam que nazistas jamais seguiram políticas de esquerda.

Alice Weidel
Weidel é uma das integrantes da AfD que replica tese considerada desonesta por historiadoresFoto: John Macdougall/AFP

A tese de que o nazismo seria uma ideologia de esquerda voltou a ser um tema na Alemanha, após declarações de Alice Weidel, colíder do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD).

Em uma coletiva de imprensa na semana passada, Weidel afirmou que o líder nazista Adolf Hitler teria adotado uma política "totalmente de esquerda" e o definiu como um "radical de esquerda" e um "extremista de esquerda". A declaração repercutiu porque contraria o consenso estabelecido há décadas entre historiadores e cientistas políticos no país.

Essa não foi a primeira vez que Weidel replicou essa alegação. Ela causou perplexidade entre historiadores ao expor essa distorção durante uma live ao lado de Elon Musk em janeiro do ano passado. Especialistas classificaram a declaração como uma forma de revisionismo histórico, por contrariar o amplo consenso acadêmico sobre a natureza ideológica do regime nazista.

A ideia de associar o nazismo à esquerda já circulou em outros países, incluindo o Brasil, onde chegou a ser repercutida por integrantes do governo de Jair Bolsonaro. Para especialistas, no entanto, a tese é considera absurda e desonesta.

"O extremismo de esquerda, atualmente e há quase um século e meio, está geralmente associado ao socialismo de raiz marxista. E este é radicalmente diferente do nacional-socialismo [de Hitler]", afirma o jornalista e historiador Jaime González Arguedas.

Segundo ele, a diferença fundamental está na visão que cada ideologia tem sobre a sociedade. "O socialismo considera que todos os seres humanos são iguais, em princípio, e que as diferenças entre eles se devem apenas ao fato de serem ou não proprietários dos meios de produção. Para o nacional-socialismo, desde o nascimento você é completamente diferente do restante da humanidade, no sentido de que toda a humanidade está dividida em raças, e essas raças são hierarquizadas", explica.

Estratégia para atrair apoiadores

A confusão costuma surgir por causa do nome oficial da legenda liderada por Hitler: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, conhecido como Partido Nazista. O uso da palavra "socialista" no nome do partido é frequentemente apontado por defensores dessa tese como evidência de uma suposta vinculação à esquerda.

Historiadores, porém, afirmam que essa denominação fazia parte de uma estratégia para atrair setores da classe trabalhadora alemã durante a ascensão do movimento ao poder. O mesmo vale para algumas propostas de caráter social presentes no programa partidário.

Arguedas destaca que havia elementos que poderiam lembrar políticas de redistribuição de riqueza, mas ressalta que isso não torna o nazismo uma ideologia socialista. "Isso não significa, porém, que Hitler tenha optado por essas políticas."

O historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, deixa claro que os nazistas jamais seguiram políticas de esquerda. "Ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda. Por isso, da perspectiva acadêmica histórica, essa declaração é uma asneira", afirma.

Estratégia da extrema direita

Na Alemanha, durante as pesquisas e debates sobre o Terceiro Reich, iniciadas nos anos 1960, chegou a haver tentativas de classificar esse regime como um movimento socialista, no entanto, há décadas não restam mais dúvidas, nos âmbitos acadêmico, social e político, sobre a natureza de extrema direita do nazismo.

Segundo a historiadora Stefanie Schüler-Springorum, diretora do Centro para Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim, essa estratégia era uma posição clássica da extrema direita após a Segunda Guerra Mundial numa tentativa de proteger o "verdadeiro nacionalismo" e se distanciar do nazismo: "Na política e ciência, porém, está mais do que consolidado que o nazismo é um movimento de extrema direita, porque rejeita a democracia e os direitos humanos, além de dividir pessoas em grupos e hierarquizá-las".

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