Por ocasião dos 500 anos de Leonardo, o museu francês organizou uma mostra disputada. Do isolamento forçado pelo coronavírus, nasceu a ideia de filmar um passeio virtual pelas obras do mestre do Renascimento.
Documentário estreia nesta quarta-feira nos cinemas de vários paísesFoto: 2009 Musée du Louvre/Stéphane Olivier
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O que caracteriza um museu de primeiro escalão? Seu tamanho, sua popularidade, um acervo de alta qualidade – e seu marketing. E nisso, o Louvre de Paris é campeão.
Uma das mais bem-sucedidas ações de publicidade foi o videoclipe Apeshit, em 2018. Os astros de R&B Beyoncé e Jay-Z dançavam pelas galerias vazias do museu mais visitado do mundo; o casal real do pop parecia sentir-se inteiramente em casa no antigo palácio da realeza francesa. E o vídeo clicado 222 milhões de vezes abria justamente com uma visita ao icônico retrato Mona Lisa, de Leonardo da Vinci (1452-1519).
Em retrospectiva, pode-se ver essa sequência como golpe de marketing visionário do Louvre. Pois no ano seguinte a casa inaugurou uma grande mostra do mestre renascentista italiano, que bateu igualmente recordes, embora no campo analógico: com 1,1 milhão de visitantes, foi a mais frequentada do museu em 2019, quando se completaram 500 anos da morte de Da Vinci.
A exposição englobava mais de 160 peças, incluindo 11 pinturas e 70 desenhos, e só se entrava com reserva antecipada. Agora, todos que não conseguiram um ingresso terão a chance de recuperar a perda. Atendendo à grande demanda após o encerramento do evento, o Museu do Louvre e a companhia cinematográfica Pathé filmaram uma visita guiada privada pela mostra.
Uma noite no Louvre: Leonardo da Vinci oferece a oportunidade de admirar de perto as mais belas obras do gênio universal. O passeio pelo museu tem como guias os curadores da mostra, Vincent Delieuvin e Louis Frank, e é, ao mesmo tempo, informativo e instigante. Em suas breves dissertações, ambos os especialistas contam sobre o passado artístico do mestre, enfatizando seu peculiar desenvolvimento da técnica pictórica.
Antes da pandemia, não havia ingressos suficientes para satisfazer o afluxo à exposição dos 500 da morte de Da VinciFoto: picture-alliance/dpa/S. Glaubitz
Arte para além da imitação
Quando a luz se apaga no Louvre, a câmera começa seu trajeto pela exposição, atravessando galerias desertas. Homem de inúmeros talentos e interesses intelectuais, artísticos e científicos, Leonardo colocava a pintura acima de todas suas demais atividades, considerando-a própria base do conhecimento e de sua pesquisa do mundo.
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Ele nasceu em 15 de abril de 1452 no povoado de Anchiano, próximo ao lugarejo Vinci, na região da Toscana. Filho ilegítimo de um tabelião, ele cresceu com o avô. Aos dez anos, mudou-se para a metrópole vizinha Florença, onde estudou geometria e aritmética. Seu professor de arte foi Andrea del Verrocchio, um influente escultor e pintor na transição dos primórdios da Renascença para a Alta Renascença.
De início, o jovem artista se dedica à arte da imitação, procurando reproduzir a realidade da maneira mais fiel possível, com interesse especial em duas formas de expressão básicas: movimento e repouso. Com Verrocchio, aprende a modelar luz e sombra, reproduzindo, numa perfeita ilusão, o volume e os diferentes planos das dobras de tecido.
Fotos sob luz infravermelha testemunham as numerosas correções e modificações nos quadros de Leonardo. Para os curadores, ele estava em busca do absoluto na arte. Quando percebeu a impossibilidade de captar a essência da vida através do método da imitação, ele mudou sua técnica.
As linhas se tornaram mais soltas, os traços de suas hachuras por vezes parecem quase caóticos. Delieuvin e Frank consideram moderno o resultado. O artista tem até a coragem de deixar inacabada parte de suas obras: ele trabalha com omissões e elipses, visando excitar a fantasia do observador.
Uma noite no Louvre é uma introdução à obra gráfica e pictórica de Leonardo. Todas as suas outras habilidades – na engenharia, anatomia ou geometria, por exemplo – ficam de fora. A câmera acompanha as explanações dos historiadores da arte, faz zoom, bem de perto, na Madona do cravo (por volta do ano 1475), em São Jerônimo (1482) ou na Madona dos rochedos (posterior a 1483). Esta última constitui uma obra-chave, pois é a primeira vez que Da Vinci confere traços individuais aos rostos de Maria e do menino Jesus.
Apresentadores do documentário tentam desvendar o mistério do sorriso da Mona LisaFoto: picture-alliance/Photo12/Ann Ronan Picture Librar
Mistérios em tela grande
Depois de viver em Milão de 1482 a 1499, quando pinta a famosa A Última Ceia, em 1500 Leonardo da Vinci retorna a Florença como artista celebrado. Lá realiza figuras como o Retrato de um jovem, cujo modelo é Ludovico di Moro. Ao pintá-lo um pouco de lado, Leonardo rompe com a tradição da época da representação frontal ou de perfil.
O corpo em ligeira rotação é um fenômeno que em parte explica o fascínio da Mona Lisa ou La Gioconda, possivelmente a pintura mais conhecida do mundo. Antes da pandemia de covid-19, 30 mil visitantes se acotovelavam diariamente diante da tela no Louvre para admirá-la.
Consta tratar-se do retrato de Lisa Gherardini del Giocondo, na época com apenas 24 anos. Para os dois curadores, o mistério está na espontaneidade de sua expressão: serena, a dama florentina olha para fora do quadro como se se voltasse brevemente para o observador que acaba de entrar na sala.
É um prazer ver na tela grande esse sorriso e os detalhes de outras obras de Leonardo. A ideia para o documentário veio durante o confinamento devido ao coronavírus, quando um encontro pessoal com a arte não era mais possível. Os realizadores precisaram de quatro noites de rodagem e uma equipe de 30 técnicos.
A exposição em Paris se encerrou em 20 de fevereiro de 2020, e Uma noite no Louvre: Leonardo da Vinci se conecta de maneira especial, mostrando por que vale a pena se ocupar ainda mais intensivamente com o multitalento renascentista. O filme estreia nesta quarta-feira (16/09) nas salas de exibição da Alemanha e diversos outros países.
Da Vinci gênio, também da anatomia
Se tivessem sido publicados, os estudos anatômicos do artista toscano teriam potencial para revolucionar a medicina. Suas revelações sobre o corpo humano eram impensáveis no século 15.
Foto: picture-alliance//HIP
Nova visão do corpo
Leonardo da Vinci (1452-1519) chega à anatomia através da pintura. Ele estuda a estrutura, função e proporções do corpo humano, procurando compreendê-las e representá-las da forma mais fiel possível. Ao contrário da Idade Média, a Renascença não vê mais o físico como mero invólucro da alma, mas celebra sua beleza.
Foto: picture-alliance/akg-images
Tudo começa na cabeça
A partir de 1489 o artista renascentista passa a se ocupar da cabeça. Ele abre diversos crânios e os desenha de diferentes pontos de vista. Seu corte transversal mostra pela primeira vez uma representação anatomicamente correta das grandes veias. Especialmente fascinantes para ele são as cavidades cheias de líquido do crânio, os ventrículos.
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Em busca da alma
Da Vinci considerava o olho o mais importante órgão sensorial, por coordenar todas as demais impressões. Ele foi o primeiro a reconhecer que os nervos ópticos se cruzam para conectar-se com o hemisfério cerebral oposto. Denominou esse ponto de cruzamento "senso comune": lá pensava estar a sede da alma. Hoje é onde se localiza o hipotálamo, encarregado de controlar as principais funções corporais.
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Insights profundos
Em 1506 um ancião moribundo lhe permite abrir-lhe o corpo. O artista-cientista registra minuciosamente todas as fases da dissecção. Ele constata que, com a idade, os vasos sanguíneos ficam cada vez mais estreitos e curvos. Em escrita reversa, descreve pela primeira vez uma artéria esclerosada, além de desenhar uma cirrose hepática.
Foto: picture-alliance/akg-images
Saber perdido
Na verdade, os primeiros estudos de anatomia já datam de 1550 a.C., no Egito. Contudo a maior parte do saber anatômico era obtida através da dissecção de animais e transposta aos seres humanos, gerando todo tipo de equívocos. Apesar disso, os conhecimentos assim compilados pelo médico grego Cláudio Galeno no século 2º d.C. permaneceram determinantes durante séculos.
Foto: picture-alliance/akg-images
Documentação excêntrica
O que Leonardo não podia representar, ele tentava descrever por escrito, mas em inversão especular, razão por que o conteúdo permaneceu oculto por longo tempo. Ele só utilizava a escrita normal quando outros também devessem ver seus manuscritos. Originalmente canhoto, foi educado para utilizar a mão direita desde pequeno, acabando por tornar-se ambidestro.
Foto: picture-alliance//HIP
Objetos de estudo macabros
Da Vinci teve a oportunidade de examinar mais de 30 cadáveres na Universidade de Pavia, ao sul de Milão. Só era tolerada a dissecção de criminosos executados ou de suicidas, os quais não podiam ser sepultados no cemitério. Como não havia refrigeração artificial, a maior parte dos exames ocorria no inverno.
Foto: picture-alliance/akg-images/A. Held
Medicina inútil
O artista toscano é também o primeiro a descobrir o apêndice, no fim do intestino grosso. Na época, muitos morriam da "dor do lado", tratada simplesmente com óleo de rícino, que na verdade não tinha qualquer efeito positivo. Só em 1735 um médico londrino realiza a primeira extirpação bem-sucedida de um apêndice supurado.
Foto: picture-alliance/Leemage/L. Ricciarini
Representações plásticas
Da Vinci estudou os órgãos e todo o sistema nervoso e muscular humano. De forma exímia, usava os sombreados para tornar suas representações o mais plásticas possível. É dele a primeira representação da coluna vertebral humana, com sua curvatura típica e o número correto de vértebras.
Foto: picture-alliance/Leemage/Costa
Pesquisa censurada
Como não era médico, o hospital acaba por lhe proibir o acesso aos cadáveres, e ele se vê obrigado a prosseguir seus estudos anatômicos em órgãos de animais. Para representar um útero com um feto, não dispôs de um modelo humano, mas reconstruiu a imagem a partir da dissecção de uma vaca.
Foto: picture-alliance/Heritage Images
Erros históricos
No entanto, Leonardo também combinava suas novas descobertas com concepções tradicionais. Assim, ligou o útero ao seio feminino, já que ali o sangue menstrual supostamente se transformava em leite, como postulava Cláudio Galeno no século 2º.
Foto: picture-alliance/Leemage
Coração em foco
Também para pesquisar o coração humano ele teve que apelar para dissecções de animais. Contrariando a visão consagrada, reconheceu que o órgão é um músculo. Para fins de estudo chegou a construir um coração artificial de vidro. Seus saber de engenheiro também o ajudou a entender a dinâmica de fluidos envolvida. Só em 1628 a circulação sanguínea seria descrita em detalhe por William Harvey.
Foto: picture-alliance//HIP
Muito à frente de sua época
Se tivessem sido publicadas durante sua vida, as constatações de Leonardo teriam possivelmente revolucionado a anatomia e, por conseguinte, toda a medicina. Entretanto, muitos dos desenhos se perderam após sua morte, em 1519. Uma parte só foi redescoberta no século 20, e a maioria integra a coleção de arte da família real britânica.
Foto: AP
Início de uma nova era
A anatomia verdadeiramente científica só se inicia com o cirurgião flamengo Andreas Vesalius, que em suas dissecções revela até os menores músculos, tendões, vasos sanguíneos e canais nervosos. Com apenas 29 anos, publica em 1542 sua obra principal: "De Humani Corporis Fabrica" – Da construção do corpo humano.